quinta-feira, dezembro 15, 2011

O Velho e o Mar: Um breve comentário da obra e Ernest Hemingway


Santiago, pescador cubano, passou 3 meses sem pescar nenhum peixe.  Sua confiança em si mesmo, assim como os peixes que não pescava, não existia mais.  Ele decidiu numa madruga ir para o mar aberto tentar  pescar peixes a si mesmo. E nesta aventura se depara com toda sua solidão humana, seus fantasmas e trava uma batalha, não somente como o peixe gigante, mas consigo. 

O velho Santiago era miserável, morava numa tapera e quase não comia, não vivia há 85 dias, porque sua existência consistia na pesca.  Ou em algo que ele não sabia distinguir... Santiago possuía um amigo, um garoto, o qual ele ensinará a pescar na infância, mas como o velho não pescava mais, os pais do menino o levaram até outro pescador para lhe ensinar o oficio. Afinal ninguém quer o filho aprendendo com um derrotado, né mesmo? 

Porém o garoto nutria um carinho/amizade pelo velho e o admirava. Sempre que podia ia cuidar dele. O garoto sabia q ele passava faltas: não tinha comida, não tinha coberta e nada. Porém o velho imaginava ter uma rede e uma panela cheia de arroz com peixe. Uma das cenas mais bonitas da amizade dos dois é retratada quando o menino paga uma cerveja e leva comida para o velho. Arruma os jornais para Santiago dormir num gesto de amor fraterno indizível/indescritível. 

“ Não existia nenhuma rede  e o garoto se lembrava muito bem de quando a tinha vendido. Mas esta era uma cena que repetiam todos os dias. Também não havia nenhuma panela de arroz com peixe e o garoto também sabia disso.” Pág 12 

Querendo provar aos outros e a si mesmo que voltaria a pescar, decidiu se aventurar em alto mar com o apoio do garoto. Porém partiu sozinho para a aventura. E é lá em mar aberto, à deriva,   onde ele descobre que não pode estar só  de fato, além dos animais marinhos,  das aves, há os nossos fantasmas interiores, nossos monstros, os quais na solidão marítima eles não têm nada de solitários, são vivos e têm voz, chegam a gritar...

Santiago fisga um peixe gigante e trava uma batalha com o “monstro” por três dias. À medida que a guerra pela vida do peixe e do homem é travada, o leitor mergulha num monologo interior cheio de dúvidas, angustias e sonhos. A loucura de estar à deriva no mar aberto é um fio tênue entre a sanidade e a loucura. 

No combate com o peixe, Santiago desenvolve certo apreço pelo animal. E do amor/compaixão surgem seus maiores dilemas e conflitos de consciência. Quantas vezes quisemos matar algo dentro de nós, mas de tão belo não conseguimos destruir, mesmo tendo a certeza de que seu destino era a  morte.  Santiago entra em crise existencial  por ter que matar peixe tão digno e belo. 

“O peixe também é meu amigo... Mas tenho de matá-lo. É bom saber que não tenho de tentar matar as estrelas. (...) Imagine o que seria se um homem tivesse de tentar matar a lua todos os dias... (...) Ninguém merece come-lo, tão grande a sua dignidade e tão belo o seu modo de agir. (...) Já é ruim o bastante viver no mar e ter de matar os nossos verdadeiros irmãos.” Pág 56-57

Porém para provar para si, para os outros que ele valia algo em sua miséria humana precisava matar o peixe. A batalha entre ele e o peixe durou 3 dias  e a dor e o sofrimento do peixe começou a incomodá-lo. Chegou num momento que ele teve a certeza que tanto faz...

“ Você está me matando peixe. ..Mas tem o direito de fazê-lo. Nunca vi nada mais bonito, mais sereno e nobre do que você, meu irmão. Vem daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem...” pág 69

Por fim, o grande peixe se curva a força do velho. Aparentemente o velho venceu... Dai surgem os tubarões impedindo que a vitória seja completa. Assim como na vida, além de vencer nossos monstros a demônios exteriores que nos desafiam e algumas vezes matam o que temos de melhor. “ O inferno são os outros” Sartre
 
Leitura que vale mais que a pena. Leitura ágil que explora os limites humanos  diante da natureza voraz e cruel...outras vezes doce e terna. Tudo esta em movimento e a luta é cíclica. Leitura que liberta... Ernest Hemingway resume o mundo e sua visão do homem nesta obra. Sensacional. Às vezes somos o velho, outras o peixe e outras ainda os tubarões. #fato


“ É uma estupidez não ter esperança...Além disso acho que é um pecado perder a esperança. Mas não devo pensar em pecados. Já tenho problemas demais para começar a pensar em pecados. Par dizer a verdade, também não compreendo bem o que são os pecados. Não os compreendo e nem sei bem se acredito neles. Talvez fosse um pecada do ter matado o peixe. Suponho que sim ,embora a carne  fosse para me conservar a vida  e para alimentar muita gente. Mas então tudo é pecado. É demasiado tarde para isso e há pessoas  cujo oficio é esse” pág78


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