terça-feira, dezembro 28, 2010

O preconceito linguístico existe para ser alicerce de um dos maiores preconceitos: o SOCIAL.

Ontem, visitando um amigo deparei-me com uma situação cotidiana a qual me incomoda muito. A irmã do amigo estava na  casa dele com o filho – aquelas visitas, rotineiras,  de final de ano. Um garotinho sapeca, bonito, curioso – como toda criança – ele não parava de perguntar coisas, questionador na essência, corria para um lado e para outro, confesso sentia-me tonta com tanta vitalidade. Mas gostava do que via... Sempre penso que toda criança é um cientista em potencial. E esse pensamento consola-me diante a mediocridade do mundo.
Eis que o menino grita para o tio:
- Tio, cê vai trabaiá hoje?
O tio carinhosamente diz:
-Não, meu querido.
E a mãe ouvindo a conversa, grita como uma louca. Confesso: Até eu fiquei com medo da mulher, agora imagine uma criança de uns 9 anos. Quanto trauma, Mon Dieu! Será que é por isso que protelo em ter filhos? Tenho medo de me tornar assim? Rs
-Já te disse que se fala TRABALHAR  e não trabaiá. Quem fala assim não tem cultura.
O menino respondeu sabiamente.
-Mas, meu vô tem cultura e fala assim.
A mãe não dialogou e disse:
-Eu já disse que é TRABALHAR  e quem fala assim é gente burra e pobre. Ponto final.
Eu e meu amigo arregalamos os olhos, sem muito poder fazer e chamamos o garotinho para jogar  Imagem e Ação.
Conversamos com ele e tentamos explicar de forma lúdica que o que ele falou não era errado.
Confesso: Toda vez que ouço comentários assim, como o da mãe do menino, tenho vontade de voar no pescoço da pessoa. Todavia eu prego a tolerância, tenho que ser então...Decidi respeitar a todos. Mas, tem horas...Pô! Sou humana! O que me deixa “louca” é o preconceito do erro sem ao menos explicar para o garoto o funcionamento da língua, ou seja vomita a cultura do erro, sem ter conhecimento da causa. Triste isso, né? Na verdade, ela ta formando um filho cheio de preconceitos. Porque quando ele ouvir “trabaiá” vai lembrar da bronca e do sermão final isso é coisa de gente pobre e burra. Lamentável!

Eu disse para o garotinho o seguinte:

- A nossa língua tem vida. Talvez sua mãe não saiba disso. Ele respondeu prontamente. E eu adorando, pois dialogar com crianças me faz um bem danado. Aprendo muito...
- Dani, como viva? Ela vive? Eu disse:
- Sim. E como a gente ela vai mudando com os anos. Nasce bebezinha, vai crescendo e se modificando. Você é igual quando  nasceu? Ele respondeu:
-Não. Eu era gordinho, loirinho e tinha cabelo liso. E agora sou magro, cabelo mais enrolado e castanho. Eu sorri e disse:
-Tá vendo. Com a língua também é assim. As palavras vão mudando se adaptando aos tempos. Consegue compreender? Ele disse:
-Sim. E além do mais meu avô tem cultura.
Eu sorri e disse:
-Claro. Todo mundo tem sua cultura e seu valor. Há muitos tipos de conhecimento e todos são importantes. Tem o conhecimento que a professora na escola te ensina, o que você aprende com seus pais/avós/amigos e o que você busca porque gosta. Por exemplo, o que você gosta de fazer?
- Jogar games. E eu sei tudo sobre eles. Leio tudo.
Eu disse:
- Ta vendo é o conhecimento que você adquiriu por suas experiências. Tão importante como os outros. Falar travaiá também é algo que se transformou durante os anos. Eu vou pesquisar melhor e agora irei te explicar somente o que lembro. É importante você aprender o português na escola, pois lá você vai aprender a escrever melhor e se comunicar em situações mais formais. Ele sorriu. E eu continuei
-A transformação do “Lh” em “ i” acontece por inúmeros motivos, na nossa linguagem falada ( a que não usamos na escola)  não existe o som consonantal LH. É mais fácil e gostoso dizer teia, não? Ele sorriu e disse:
-Sim. Eu continuei.
-Você ta fazendo inglês né? Ele respondeu:
-Sim.
-Então...No inglês existem sons que nem na língua que aprendemos na escola, a chamada língua padrão existe e nem por isso é errado falar inglês, né? Ai, sabe aquele r do caipira...Ele é muito usado no inglês. E aqui as pessoas riem de quem fala “ porrrrta” Que bobagem, né?
-Já riram de mim por falar assim. Mas agora que você falou do inglês vou falar para eles. Assim ninguém tira sarro. Eu sorri e disse:
-Eu estou estudando francês. Alias você sabia que o francês e português são línguas irmãs, elas vem do latim vulgar (era como a língua que você não aprende na escola. A  língua que a gente fala com os amigos. E dele nasceu nosso português). Agora você fala isso para sua mãe e diz para ela também que em francês o verbo é travailler e se fala travaiê, não é quase igual trabaiá?
-É sim. Ta vendo, por serem línguas irmãs vindas dos mesmos pais, ficam traços que o tempo abafa e depois aparece. O menino espertamente disse:
-Ah! Dani agora entendo porque minha vó fala barrer e não varrer. As pessoas riem, mas agora sei. Porque no frances fala travaiê. Ta vendo? Eu sorri de tanta felicidade. Pô! Uma criança de 9 anos entendendo o funcionamento da língua, despida de todos os preconceitos e compreendo todo o dinamismo que a envolve. Meu! Para mim isso foi o melhor presente do mundo. Felicidade doida. Rs Eu disse:
- É mais ou menos isso mesmo. Lembra que eu te disse que as línguas são irmãs, então... com o tempo elas foram crescendo se afastando dos pais e criando suas vidas próprias. E sempre fica algo dos pais na gente, mesmo quando ficamos grande. Dá para entender?
-Sim. E me deu abraço.  E disse:
- Não gosto que tirem sarro do meu avô. Agora vou explicar o que você ta me ensinando.

Nota: Quis relatar o fato porque o problema todo é que a língua não padrão é geralmente utilizada por pessoas consideradas excluídas socialmente. E ao contrário do que se pensa a língua falada não é pobre ela tem toda uma lógica rica. Alias, pobre é quem repete o discurso do erro sem ao menos se preocupar em descobrir os motivos da língua variar tanto, taxando as pessoas de rótulos imbecis. Quando no fato o imbecil é ele, por achar que sabe algo, mas já dizia o grande Socrates: Sei que nada sei. As pessoas mais cultas que conheci na vida ou que admiro são humildes e enxergam na linguagem popular vida.
Para mim erro  é fadar pessoas viverem na marginalidade devido sua classe social e sua forma de verbalizar com o mundo, imoral é assistir pessoas passando fome e não tendo acesso a educação/cultura. O preconceito linguístico existe para ser alicerce de um dos maiores preconceitos que existe: o SOCIAL.
A língua é o que nos faz sermos humanos... Compreender suas variações é ter capacidade de aprender e de ser GENTE. 

3 comentários:

Paola Perazza disse...

Quanta ternura! Parabéns pela postura! Não sou mãe, mas poxa, acho que você pode ser mãe sim :)

Anônimo disse...

Daninha,

Que narrativa doce. Uma boa forma de aprender. Vc é maravilhosa. Te adoro! bjo do Júnior

WiLL disse...

Dani:
Nunca acabaremos com o preconceito. Pior que ele é a discriminação, as atitudes provenientes dessa forma de pensar (?).
Sua narrativa é realmente ótima, como sempre. Tão afável, um verdadeiro tapa na cara de quem merece, mas sutil, sem bater rs
vc sabe chegar de mansinho...
te adoro
bjokas