segunda-feira, outubro 25, 2010

O segredo dos teus olhos





“Os olhos falam.” É uma frase proferida pelo personagem principal, Benjamín Espósito (Ricardo Darín), que não me sai da cabeça. Só pelo título o filme merecia um ensaio. Afinal, o que há por trás do olhar, senão tanta vida e a própria essência humana? Tantos mistérios, facilmente desnudados, contudo insistimos em negar nossos instintos e ignora-los. Assim é no filme...

A película é do diretor argentino Juan José Campanella e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano. O filme conta a história de Espósito um funcionário da justiça aposentado que pretende escrever um romance acerca de uma assassinato que ele me mesmo investigou e que de certa forma marcou sua vida – uma garota barbaramente estuprada e morta e o marido que passa a vida sem saber como viver sem a mulher-. Neste seu desejo por resgatar essa história trágica, esta também o interesse de se resgatar em algum ponto do tempo passado, onde ele ficou perdido. Para retomar a sua história, Esposito procura sua ex-chefe e colega de trabalho Irene ( Soledad Villamil). Quando se reencontram, Espósito compreende que o tempo pode mudar e retomar seu inicio, mesmo parecendo que fique parado. E todas as dores sufocadas podem ser libertadas. Ele percebe que tudo esta mais vivo do que parece. E tudo depende da forma de olhar...

“O segredo dos teus olhos” é considerado um filme policial, pois envolve crime/mistério, contudo ele vai além desse gênero, pois o que há por trás dele são questão filosóficas presentes cotidianamente em nós. É o tipo de filme que saímos do cinema com uma sensação de boca seca, se perguntando e ai? E agora? Deixar a vida passar com as veias cheias de sangue pulsando por vida? Não tomar atitudes por medo e depois apenas enxergar a vida que poderia ter sido? Até onde deve-se agir por impulso?

O filme é marcado por idas e vindas/cortes temporais, misturando o passado com o presente. Comparando um Espósito jovem que não vive por medo, e outro que não sabe o que fazer com sua vida tão vazia. Confesso: A cena inicial é um mosaico assustador que confunde o espectador, pois junta os tempos. Não há tempo verbal. Uma das cenas mais belas, a qual me desmontou no inicio de filme é uma bela garota na estação de trem correndo atrás do trem, desesperada, e o homem a fitando pelo vidro. Sem ação, contudo querendo ter ação e sem forças. Ah! O olhar é tão claro, mas se separa das ações e o todo verbo do mundo fica sem sentido diante tamanha covardia. A qual, Espósito só se dá conta 25 anos depois. Trágico, né? Essa cena também se repete no final do filme. Como resgatar tanto tempo? E uma das indagações que ele faz para o marido da moça assassinada. Como ele consegue estar vivo e encarar o tempo? E como ele consegue suportar viver sem o sorriso da esposa?

Outro momento que me chamou atenção no filme é quando Esposito descobre o assassino da vitima pela fotografia, pelo simples fato de como ele olha para a moça. Achei a cena de uma sutileza, de uma poesia e de uma humanidade sem precedentes. Fotografia é uma forma de reviver momentos e neles estão tantas verdades e não a encaramos. O modo de olhar é revelador sempre.

O filme é belíssimo, sua fotografia é misteriosa e um pouco densa, e o desenrolar da história também é surpreendente e sempre nos leva a outras formas de olhar. Você se sente preso na película com o olhar sempre fixado na tela/história/vida. O olhar agora é mais que a janela da alma é o começo do mundo...


Trilha sonora do dia --- Olhos nos olhos do Chico Buarque -- http://www.youtube.com/watch?v=tNe3HqZiyyw 

2 comentários:

Alisson da Hora disse...

É um filme belíssimo. Como você disse, de uma poesia e implicações tremendas. Principalmente sobre o tempo e a memória. E o quanto ficamos com coisas mal resolvidas, sempre.

Sobre esse lance da fotografia, recomendo "A câmara clara", do Roland Barthes, em que ele, a partir de uma fotografia de família tece um dos livros mais tocantes que eu já li, sem ser de literatura...

beijos

WiLL disse...

Daniela Paula, garota cinema:
Esse filme é lindíssimo, e eu mesmo já pensei em escrever sobre ele. Mas vc o fez e é suficiente. Como sempre, escrevendo mto bem e deixando sempre a vontade de ver o filme que vc descreve, ou de revê-lo...
Esse filme é delicado, sutil, apaixonante, com detalhes lindos... Assim como vc.
te amo.
bjokas