sexta-feira, abril 30, 2010

O mar...


TRILHA SONORA DO DIA: MAR E LUA -CHICO BUARQUE
http://www.youtube.com/watch?v=mae4cg-0PFM 




O despertador tocou. Ele se espreguiçou, já com preguiça do dia que se iniciava. Era sempre a mesma coisa. Vida de aposentado não tem graça e nem motivação. Pra se levantar da cama era um ritual monótono e doloroso. A vida parecia pra ele não ter mais sentido.
Levantou-se foi ao banheiro. Sempre que olhava seu rosto no espelho sentia vontade de chorar. E nunca chorava, mas dessa vez chorou. Sentia saudades do homem que fora e agora só enxergava um velho sem esperanças e sem sentido. Chorou e parecia que iria morrer de tanto chorar. A vontade secreta dele era essa. E repeliu pra si mesmo olhando fixadamente para o espelho: Ninguém quer envelhecer. Acho que deveríamos morrer no auge da nossa plenitude. O meu rosto eu já não reconheço mais, meu corpo fraco. Sonhos que já não existem mais. O pior defeito de Deus foi deixar o ser humano envelhecer. Talvez ele queira que pagamos por algo que cometemos. Talvez ele quisesse vingar a morte de seu filho. Quanta bobagem. Mas, quanta verdade, pois o mundo não é simpático com os velhos. Sempre nos olham com desprezo, como o quarto de despejo da casa. Ele abaixou a cabeça e abriu as torneiras deixando a água cair sobre suas mãos.
Seu João contava com 75 anos, uma esposa falecida há 6 anos por problemas de coração e uma filha chamada Clara. Clara tinha 42 anos, mulher dinâmica, auxiliar administrativa de uma fabrica de lingerie. Clara era casada com Chicão e tinha dois filhos. Era o protótipo da mulher contemporânea. Sempre ocupada com marido, filhos, trabalho e com as contas da casa. E sempre se esquecia do seu pai. Talvez porque coisas velhas a gente sempre deixe guardada e se esquece que um dia elas desaparecem.
A relação de Clara e João era inexistente. Mas pareciam dois estranhos. João mal tinha contato com os netos. E também o dialogo era difícil, pois as crianças só falavam de computador, videogames e Mac Donalds. Como ele não entendia desses assuntos, parecia que a conversa era em grego com os netos. A falta de afetividade da filha com o pai assombrava João. E fazia sua velhice parecer ainda mais penosa.
João sempre acreditou que em uma determinada fase da vida a separação com sua filha seria um fato. Mas, o problema é que eles nem tiveram separação, afinal nunca tiveram relação. Quando chegou a esta conclusão uma angustia subiu de seu peito a sua garganta e ficou entalada. Sentiu vontade de gritar, de se atirar pela janela. Pois, passou o tempo e a filha nem o notou. E o pior ele nem a notou crescer.
Saiu do banheiro com uma sensação estranha, um aperto no perto e o coração acelerado. Será que era a morte chegando. Ele chegou a ter medo. Pegou o telefone e ligou pra Clara. Pediu que ela viesse, pois estava passando mal. Ela disse que mandaria o marido. Clara era uma mulher autoritária e não conhecia o verbo pedir. Ele disse para ela vir. Chegou a implorar. Ela parecia implacável, mas acabou cedendo.
Quando Clara chegou a casa ainda estava fechada. As janelas, as cortinhas. Ela começou a abrir tudo e disse:
-Pai?
- No quarto. Ele disse com uma voz tremula.
Ela correu pro quarto.
-Pai, você ainda não se trocou?
- Clara eu vou morrer. E não queria morrer sem ver o mar. Apesar dele morar perto do litoral nunca teve tempo de ir ver o mar.
- O que o senhor ta dizendo? Ta louco!
- Clara quero viajar com você para o litoral. Preciso disso. A gente precisa se conhecer antes de eu morrer.
- Clara olhou para o pai com um olhar conflituoso e triste pelo o que ele havia dito.
- Para com isso pai.
- Me dá essa chance.
-Quando?
- Agora.
O litoral ficava 1h de São Paulo. De carro a viagem era bem agradável.
- Agora? Ta louco.
- Eu não tenho tempo.
- Tempo é dinheiro, pai. No final de semana.
-Agora.
Ela ainda estava em duvida, mas cedeu.
-Subiram no carro e se dirigiram para o litoral.
A estrada era bonita, ladeada de florestas, flores e com muitas curvas, assim como a vida. Talvez um bom lugar pra se descobrir seja na estrada de Santos.
Em meia hora de viagem não trocaram uma palavra, apenas se olharam.
- Clara. Engraçado esse silencio. Disse o pai.
- Engraçado como? Indagou ela com medo da resposta.
- O incomodo que isso causa. Não causa em você?
- Não vejo incomodo nenhum.
-Quanto tempo você não ia me visitar?
_ Ah! Pai para com isso. Você sabe que tenho dois filhos, um marido e um trabalho.
- E isso é motivo?
- Claro. Sempre que tenho um tempinho na minha agenda dou uma passada na sua casa pra te ver.
- E isso basta?
Ele arregalou os olhos e não sabia o que responder.
-Não basta, minha filha. Eu também acho. O tempo passa depressa e a vida também. E eu nem olhei para você. Talvez seja esse meu pagamento: um tempinho na sua agenda.
- Pai, para.
- Eu não a culpo. Apenas queria dizer que a amo. E que me arrependo profundamente de nunca ter demonstrado isso claramente. Talvez hoje seriamos pai e filha de verdade. Quem eu sou para você? Você sabe do que eu gosto? Dos meus sonhos que não existem mais?
Clara começou a chorar. Mas tentava segurar suas lagrimas.
-Quando a gente envelhece minha filha, a gente se torna um estorvo. O quarto do fundo da casa. Sempre que olhar para uma casa veja o quarto dos fundos, sempre terá um idoso lá... Por que será? Será que todos foram egoístas como eu? Será que todos não perceberam as coisas simples como eu?
Clara chorava e não conseguia mais esconder as emoções. De repente João disse com uma voz emocionada em voz alta:
- O mar! A vida é como o mar. O mar! Tão profundo e misterioso. Tão cheio de vida e morte. Tão cheio de cada um de nós. Sabe Clara a vida termina a medida que paramos de sonhar.
Clara não conseguia parar de chorar. Parou um carro numa praia deserta e ambos desceram.
O silencio de Clara já não o incomodavam mais. Agora o silencio era quebrado pelas ondas do mar, o mar era uma sinfonia perfeita para aquele momento.
- Clara!
-Oi. Disse ela soluçando.
-As pessoas dizem que é bom envelhecer. Que isso traz sabedoria. Mas te digo que não é não. Eu por exemplo, era um homem viril, forte, desejado. Hoje não sou nada, além da sombra que eu fui. Eu não sonho mais. Além do que sempre as pessoas parecem ter pena dos idosos. Sem se darem conta que logo serão um. Uma coisa que nunca suportei foi me oferecerem lugar no ônibus lotado, dá uma impressão que eu sou tão inútil que não consigo parar em pé. Isso dilacera o peito. Destrói o resto de dignidade que ainda tenho.
Clara apenas ouvia e chorava.
-Hoje eu acordei com vontade de morrer, minha filha. Quando me vi no espelho pela manhã sentia que isso era o único sentimento possível. Mas me lembrei de você. E não poderia morrer sem pedir perdão pelo meu comportamento egoísta durante todos esses anos. E isso me faz não ter o direito de cobrar seu amor. O único sábio conselho que seu velho e cansado pai te dá. Seja menos egoísta. Não deixe que os diálogos com seus filhos se limitem a desliguem o computador. A vida é mais. E só perto da morte percebo isso. Só olhando o mar percebo o quanto é bom viver.
Clara chorava porque não conseguia mostrar nenhum afeto verdadeiro ao pai. Eles nunca se abraçaram. Alias Clara não abraçava quase ninguém.
João pegou nas mãos da filha, as beijou e correu pra tomar um banho de mar.
Clara não continha a emoção. Mas não conseguia se expressar.
João voltou e disse:
-Vamos.
Ela não respondeu. Apenas caminhou ao seu lado até o carro.
João sabia que esta seria a ultima vez com a filha e também que veria o mar. Mas sorriu. DANIELA BUENO




6 comentários:

WiLL disse...

Quanta poesia na sua vida.
Lindo texto que fala do egoísmo, do amor, da saudade, do arrependimento, do envelhecimento.
Será que todos nós cuidamos de não manter um quarto dos fundos com o despejo da nossa vida?
Beijos e boa sexta!

WiLL disse...

Ana Carolina e Jorge Vercilo compuseram uma música que se chama "Eu que não sei quase nada do mar" a pedido de Maria Bethânia. É linda.

WiLL disse...

Tem outra música,de Marisa Monte/Carlinhos Brown/Arnaldo Antunes, chamada "Água Também é Mar". Lindinha tb.

Girassol disse...

Will,

Adoro tantos seus comentários, eles me fazem me sentir um pouco melhor e ter uma certa essperança na vida e em mim mesmo.
A melhor coisa q aconteceu comigo em voltar p Marília, foi ter conhecido vc, meu amigo amado!
Te adoro mais q tudo...bjooo
Vamos a nossas analises linguisticas, intertextual da midia. To adorando isso...hehehe
bjo

Girassol disse...

Vou procurar na net. Vc tem bom gosto. Obrigada pela dica.

WiLL disse...

a voz embarga, a lágrima desponta... e o coração bate feliz
tb te adoroamo de monte
bjs