quarta-feira, junho 01, 2011

CARIDADE FINGIDA

Eu sou o tipo de pessoa observadora nata. Há dias em que essa característica torna-se um inferno e queima a alma feito incêndio que não há formas de se conter ou apagar. Contudo essa característica da minha “persona” é o alicerce para minhas mãos inquietas digitarem inadequadamente esse texto.

Salão de beleza deveria ser considerado o maior campo de pesquisa das áreas da antropologia, sociologia, feminismo e psicologia, pois este local oferece um prato cheio de idéias conservadoras, limitantes e da manutenção privilégios para uma classe social. E o pior... São discursos proferidos por mulheres, que assinam a ata autorizando o machismo e a segregação. #vergonhaalheia Isso me causa tremedeiras e faz minha pressão arterial subir como um foguete. Enfim... Ontem as mulheres falavam de caridade. Contudo penso que elas não compreendem de fato o sentido/significado e muito menos o campo semântico do vocábulo. Reproduzirei um diálogo que ouvi, o qual me deu náuseas:

- A minha emprega é uma ingrata. Dou todas as roupas usadas dos meus filhos para ela. E a molenga é uma lerdeza só. Se não fosse eu, os filhos dela não se vestiriam bem.
- Isso que dá ajudar os outros. Elas são assim mesmo. Essa gente não gosta de pegar pesado não, por isso estão na situação que estão.
- Mas eu gosto de ajudar. Sinto-me bem com isso.
- Ai! Eu também adoro ajudar os pobres. Inclusive faço sopão no Centro espírita de domingo.
- Que bonito, querida! Sempre quando passa alguém pedindo eu dou comida. Geralmente SOBRA muita comida em casa.
- É. Mas esse povo é folgado também. Vivem de bolsa família essas bolsas esmolas que o governo dá. Tem preguiça de tudo.
- A filha da minha empregada invés de trabalhar, ta fazendo faculdade, pode? Pobre tem q trabalhar e depois que estude.
- Verdade. A gente não pode levar esse povo nas cosas, pois eles montam.
- A filha da minha emprega, além de tudo é muito piranha. Negra, cabelo alisado, um horror. Se acha. Não gosto que ela vá em casa e influencie meus filhos.
- Você ta certa. Geralmente eles são bem bregas na maneira de se vestir. Acho ridículo cabelo negro alisado. Bem, preciso ir para casa que hoje tem feira da sobremesa e eu precisa ir para Galeria. Vida de voluntária é assim. “

Primeiro, dialogo lamentável e cheio de clichês e preconceitos, os quais me fizeram entender que esse tipo de caridade que elas se referem é uma forma de dominação e até de estatus social: “ Eu ajudo!” Ajudar ta na moda. Mas percebo que para esse tipo de pessoa e para seus egos o importante é manter a miséria, porque programas de inclusão e acesso a universidade possibilitam outros caminhos para os excluídos: libertando-os das amaras escravizantes da caridade fingida. Por isso a repetida tecla “do bolsa esmola”. Acesso é um perigo para essa gente que se acha melhor e superior a todos. E, que acha que encontraram a redenção das suas vidas medíocres doando uma roupa usada. Owwwww Quando a redenção está no amor e ele não tem nada a ver com as cenas descritas acima.
A inveja da beleza filha da emprega se dá porque os marido “dessa senhora” deve desejar a moçoila. E a patroa percebe isso, por isso o discurso racista e segregador. #FicameuRecado Tomara que ele te troque pela negra de cabelo alisado. Eu iria morrer de rir aqui. #SarcasmoModeOn

No fundo a fingida caridade é sinônimo de manutenção de privilégios e de estatus, pois na sociedade doente que vivemos: Mostrar-se solidária dá ibope. Agora lutar pela justiça e igualdade social é coisa de comunista. Owwwwww E no fundo o que os “ caridosos fingidos” fazem é tratar as pessoas como animais. O resto para os porcos!

O amor dessa “ caridade fingida” não tem sentido humano. O abismo que o separa da verdadeira caridade é enorme... E nem essas reticências podem alcançá-las.

7 comentários:

Anônimo disse...

Vc é ótima, Daninha! Ei que linguinha afiada. (rs) Adorei o teu texto, girassol!
beijos do Júnior

Anônimo disse...

Linda, inteligente, querida e marxista. Vc existe, mulher? Acho q é uma androide. Adoro ler-te. Parabéns pelo texto sarcático ou não é bem real.
Beijos, André

WiLL disse...

Danizinha afiada,
sua capacidade narrativa cada vez melhor, hem...
o conteúdo das conversas infelizmente é algo tão recorrente ainda... quando nos livraremos da segregação, quando admitiremos que somos fracos medíocres? Odeio madames falidas que gostam de mídia às custas dos 'pobres coitados que vão pra faculade'
vc ta bem ácida hj, hem!!!
bjokas

keka Costa disse...

Só falta entrar no PCdoB, pq consciência de classe ela já tem...rs. Sobre esse texto, recomendo o filme "Quanto vale ou é por quilo". Beijos Dani.

Manuela Martins disse...

Daniela e o laboratório "salão de beleza"... é uma experiência sem igual, uma torre de Babel na horizontal... e a gente, atenta - se encolhe num cantinho, de olhos à espreita e ouvidos aguçados. Ao saímos de lá,tentamos identificar em qual o planeta estamos ou se, realmente, fazemos parte de algum? Alouuuu?! "aqui quem fala é da Terra...

Manuela Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuela Martins disse...

Minha amiga Daniela e o laboratório "salão de beleza"... é uma experiência sem igual, uma torre de Babel na horizontal... e a gente, atenta - se encolhe num cantinho, de olhos à espreita e ouvidos aguçados. Ao saímos de lá,tentamos identificar em qual o planeta estamos ou se, realmente, fazemos parte de algum? Alouuuu?! "aqui quem fala é da Terra...