domingo, abril 10, 2011

Sonata de Outono: Retrato da alma humana.

"É preciso aprender a viver. Eu pratico todo o dia. Contudo meu maior obstáculo é não saber quem sou. Eu tateio cegamente...
Se alguém me ama como eu sou, posso finalmente ter a coragem de olhar para mim mesma. Porém essa possibilidade é pouco viável...” Eva ( Liv Ullmann)

Hoje acordei muito cedo, escovei os dentes, tomei café, conferi minhas redes sociais, li alguns blogs de amigos, dei uma sapeada pela grande mídia: só para ler as manchetes, fui correr, falei com meu irmão ao fone. Depois de tudo isso e da noite lendo um livro de cartas do Van Gogh, encontro entre meus dvds o filme “ “Sonata de Outono” do Ingmar Bergman ( um dos meus cineastas prediletos. Sinto-me, na maioria das vezes, como ele, não é questão de solidão de pessoas, e sim de sentimentos, ideias. Enfim...apreciar a obra de Bergaman sempre me faz um bem danado. Sempre digo >>>> não há melhor terapia que a ARTE). Quando vi o filme senti meu coração disparar como se estivesse diante do amor da minha vida. E descobri que há pedidos que não tem como deixar passar em branco, portanto me vi na obrigação de agradar meu coração e coloquei o filme para (re) apreciá-lo. Só o fato da trilha sonora ser composta por Chopin, Bach, Hendel já era mais que motivo suficiente para (re)ver ao filme. Todavia meu coração queria mais...

Sonata de Outono (1978/Suécia) é um filme belíssimo em sua estética, sua fotografia – Talvez por fazer analogia a estação do ano outono, o diretor de fotografia, Sven Nykvist optou por imagens e takes amarelados ou excessivamente escuros, mas sempre com algo amarelado. Afinal o que é o outono? Seria a estação das possibilidades: de morrer para poder nascer mais bonita/forte na primavera. Já seu enredo conta a história de um conflito familiar: mãe e filha. O filme é bem feminino em sua essência. Chartole( Ingrid Bergaman) abandonou a família pela sua carreira musical e depois da morte do companheiro vai procurar a filha Eva(Liv Ullmann) para tentar uma conciliação. Charlotte não vê Eva há 7 anos. Portanto, a impressão que se tem é que são duas estranhas tentando se reconhecerem. 

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 TRAILER 

Eva mostra-se empolgada, realmente, entusiasmada com a visita da mãe e com a possibilidade de resgatar a relação de mãe e filha. Porém para Charlotte tanto faz. Essa é a grande diferença entre elas. Charlotte é extremamente egoísta, percebemos isso no primeiro diálogo entre mãe e filha, praticamente é só ela que fala: sua vida, carreira e o pronome “eu” é o soberano em seu discurso. Ela não presta atenção na filha, e no fundo não está nem ai para nada, a não ser consigo. Só esboça algum sentimento quando Eva diz que sua irmã Helena ( a qual possui alguma doença degenerativa – ela não anda, quase não fala e vive acamada) está morando com ela. A mãe se sente perplexa e diz que não quer ver a outra filha, mas Eva insiste e Charlote cruelmente rebate dizendo que não tem outra escolha. O que mais me assustou foi o comportamento dela diante da filha doente, fragilizada, pois para parecer uma mãe saudosa e amorosa foi hipócrita. Sempre usando diminutivos e dizendo que a filha estava bonita, quando na verdade ele repugnava Helena – pela doença-. Quando sai do quarto da filha doente, Charlote se pergunta: “ Por que me sinto como se estivesse com febre? Preciso ser envergonhada, é isso que preciso. Então sinto a consciência pesada, sempre pesada. Eu estava com tanta pressa de chegar, mas o que eu esperava? O que eu desejava tão desesperadamente?

Por outro lado, Eva considerava a mãe extraordinária e via nessa visita a possibilidade de reaproximação da família, como se a esperança da gente nunca acabasse e que amadurecer fosse poder lidar com sonhos, planos e esperança sem ansiedade. E ela se sentia pronta para lutar pela mãe. Eva Também tinha problemas com atitudes meigas e doces. Penso que é por causa da mãe: sempre doce, com palavras bonitas, mas sempre ausente e incapaz de amar. Numa cena ela até diz que não gostava de chocolate, fazendo uma analogia a doçura da mãe.

Eva prepara um jantar para a família e anseia em tocar para a mãe apreciar. Eles jantam e depois Charlotte pede para Eva tocar. A moça tenta fugir, mas o marido a encoraja reafirmando o desejo de Eva de tocar para a mãe. Ela senta ao piano e toca Chopin divinamente; os takes no rosto de Charlotte a mostram sufocada e por vezes comovida com a canção dedilhada pela filha. Quando a moça termina ela bate palmas e Eva pergunta o que ela achou. Charlotte enrola para responder e depois diz que Chopin era emocional, mas nunca enjoativo e que sentimento é muito diferente de sentimentalidade, ou seja ela é arrogante com a filha e dá a impressão que ela quer humilhá-la.

Talvez depois de Chopin Eva e Charlotte se sentissem atormentadas com seus fantasmas e não conseguiram dormir. Preambulando pela casa, ambas se encontram na sala e travam um dos diálogos mais pesados/duros/cruéis/emotivos que já vi no cinema. Um festival de acusações da filha para mãe e vice-versa. Eva acusa a mãe de nunca ter amado ela e a irmã, de sempre ter sido ausente e de nunca ter pensando em alguém fora ela própria e ainda diz que pessoas como Charlotte são uma ameça para outras pessoas, que ela deveria ser tomada como inócua. Charlote só reage perguntando se Eva a odeia? E tenta justificar dizendo que também é infeliz. Confessa que sempre quis amar Eva e Helena, mas não conseguiu. Reiterando que a única forma que ele possui de demonstrar sentimentos é pela música. O diálogo das duas é de fazer qualquer pessoa ficar muda , engolir seco e refletir nas nossas relações sempre recheadas de hipocrisia. E, principalmente, não julgar o outro. Julgar Charlotte seria uma imbecilidade, pois apesar de sua aparente frieza/crueldade é na música que ela demonstra seus mais sinceros sentimentos, os quais são imensos...

Charlotte não aguenta a verdade e vai embora. Eva porém termina o filme dizendo que nunca desistirá da mãe, que não pode ser tarde demais. Ficando a obra aberta para outros encontros e possibilidades...

Comentário Inútil : Ingrid Bergman está belíssima neste filme. Sua atuação é de deixar a gente com o coração na mão. Como Ingrid está mais velha, alguns takes fixam na sua face, nas suas linhas de expressão e rugas. Confesso: As marcas de expressão nela me pareceram interessantes. #questaodeolhar

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