segunda-feira, janeiro 31, 2011

Coisas de menina

Nunca entendi a segregação dentro do universo lúdico infantil: brinquedos de meninos e de meninas. Na verdade sempre considerei isso muito chato. Lembro-me que quando era criança sofria com essa divisão. Bem, isso veio à tona na minha memória afetiva porque sábado (29) fui ao shopping comprar um presente para a filha de uma amiga, a qual faria aniversário domingo (31). E nesta saga de encontrar o presente certo me deparei com um fantasma que me atormenta até hoje: sexismo.

Tudo começou por volta das 15h do sábado, tive que ir ao shopping encontrar um agradinho para a menina. Confesso: Eu adoro entrar em lojas de brinquedo, principalmente, para namorar os joguinhos de estratégia e divertimento. De resto eu nunca reparo nestas lojas, porque não tenho filhos, sobrinhos e quase nada mais me interessa. Cheguei na bendita loja e a vendedora já veio me perguntar:

-Posso te ajudar, moça?

Confesso2: eu odeio este questionamento por parte de vendedores, tudo bem que é o trabalho deles. Mas considero isso tão demodê. Aff Eu respondi:

- Claro. Estou procurando um brinquedo para uma menina de 8 anos. O que você teria me mostrar? A moça sorriu e disse prontamente:

- Muitas coisas. Primeiramente vou te mostrar o que garotas nesta idade mais gosta. Eu sorri amarelo e ela continuou:

- As meninas dessa idade adoram brincar com aparatos de cozinha. E começou a me mostrar panelas, mini cozinhas.

Neste momento comecei a suar frio. Pensando comigo: O que é isso? Menina gosta de ganhar panela? Quem é o gênio/pedagogo que inventou esses brinquedos? Ah! Se eu soubesse quem era o cabra, encheria -o de porrada. Bem, a tremedeira apenas estava no inicio.

Eu disse:

- Ah! Não. E ela veio com a bomba.

- Ah! Meninas nessa idade também adoram brincar com vassourinhas, rodinhos e apontou os objetos. Elas adoram brincar de casinha.

Nesta hora meu coração já tava disparado. Como assim? Pensei comigo. Brincar com vassoura? A vontade do momento era dar uma vassourada na vendedora, mas me contive. Pois agora ando trabalhando a tolerância. Eu disse educadamente:

- Não. Outra coisa. Ela me apontou para um bando de barbie.

Neste momento pensei que fosse surtar de vez e que meu pobre/fraco coração não aguentaria mais. Todavia me contive. Fiquei imaginando o que esse tipo de padrão incutia na cabeça de uma menina de 8 anos...e me revoltei. Na verdade, contra os pais que apóiam esse tipo de sexismo. Digo isso, porque brincadeiras de moleques são livres: esconde-esconde, corre-corre entre outras. E os brinquedos? Mon Dieu! Eles são muito legais: carros, joguinhos. Por que carros não são brinquedos de meninas? Joguinhos de estratégia?

Será que os fabricantes acreditam que garotinhas não pensam? Brinquedos para meninas são uma miniatura da vida da dona de casa adulta? Achei que fosse enfartar na loja. Mas como se não bastasse a moça continuou:

- Temos aquelas bonecas que são parecidas com bebês. Neste momento quase cai para trás. E a moça falou com certo desespero:

- Moça, você está bem? Quer água? Eu respondi engasgando:

-Deve ser o calor. (na loja tinha ar condicionado, uma resposta estúpida, contudo só um tipo de resposta como essa para me tirar de lá logo). Sai e não disse nada. A moça ficou me olhando espantada.

O que me indignou é o fato da menina ainda ser criada para casar e ter filhos desde pequena. Ainda hoje. E isso é aprovado por pedagogos/pais e pela sociedade. Que coisa horrorosa! As brincadeiras não deveria ser distintas, isso restringe o mundo infantil. Lembro-me que quando era criança me revoltava com a frase da minha mãe. “Isto é coisa de menino”, ou, Você é muito relaxada para uma menina, minha filha! Meninas não correm! Poxa! As melhores brincadeiras eram dos meninos. Isso me frustrava tanto. Talvez por isso eu destruísse todas minhas bonecas. Eu era uma máquina de destruir bonecas. Tive uma “bate palminha” que morreu com uma semana de vida. Mergulhei a desgraçada na água. Ela nunca mais bateu palmas. Que alivio! A musiquinha era ridícula: “ Bate palminha, bate. Bláblá para quando o papai vier” Tenho traumas. #medo

Ah! Invejava os brinquedos do meu irmão. Adorava um carrinho de formula1 que ele tinha, também uma bicicleta cross. E o ferrorama? Adoro, sou louca por trens. Aquilo era uma alegria para os meus olhos. Nossa!

Ah! Eu também destruía os brinquedos do meu irmão, talvez uma forma de me vingar da limitação de ser menina. Não sei. Talvez o único brinquedo que ganhamos em conjunto que eu amei de verdade foi um vídeo-game atari. E claro, eu era a melhor jogadora. Heheheehe Porque além de tudo, mulher tem que provar ser mais competente que o homem. E só quem é mulher para entender o que eu digo. Odeio a cultura machista. E ainda ela está presente em nosso cotidiano tão ferozmente.

O fato é que sai da loja sem comprar nada. Assustada, e respirando fundo e ofegantemente. As pessoas me olhavam com medo. Deveriam pensar que eu era uma maluca ou psicótica. Desisti do presente.

Contudo como sou cara de pau fui ao aniversário e me empanturrei dos docinhos (isso não é separatista) tem em qualquer festinha. Adoro essa liberdade. Hahaha E disse para a mãe da aniversariante com aquela cara mais lavada do mundo:

-Não tive tempo de ir comprar um presente. Depois eu trago. Contudo disse isso com certa felicidade, como seu eu tivesse contribuindo para o mundo da menina ser menos medíocre e preconceituoso. Foi exatamente a sensação que tive naquele instante.


Nota 1: Senhores pais, separar brincadeiras por sexo é uma idiotice sem tamanhos. Quanto mais livre, mais aprendemos a respeitar o outro, as diferenças e a vida.

Nota 2: Eu adorava brincar na rua. Vivia suja. Lembro que uma vez minha mãe me deu banho com escova de lavar roupas para tirar a sujeira. Sempre gostei de ser sujinha. Hahaha entendam como quiserem...


Nota 3: Há meninos que adoram brincar de bonecas, mas são bloqueados pelos pais, por pura questão machista. A eles também deixo aqui minha solidariedade.

Nota 4: Se há meninas que gostam desse tipo de brinquedos tradicionais e separatistas, elas também devem ser livres e serem respeitadas por suas escolhas  #direitodeser Mas a elas devem também ser apresentadas outras possibilidades ... A vida não é limitada. 

11 comentários:

Thiago Beleza disse...

Não são pedagogos que desenvolvem estes brinquedos.. São publicitários, empresários, administradores... Pedagogos quando muito participam auxilinado nas estratégias de comunicação pra atingir de maneira mais eficaz as crianças.... Esse é o capitalismo.. It's All business...

Machismo e sexismo? Commodities... o preço a se pagar pela imagem ruim que fica dessas empresas entre os poucos que se emputecem, é comprado pelo lucro exorbitante que estas instituições abarcam...

WiLL disse...

menininha Daniela, a com laço de fita no cabelo, a menina girassol:
essa limitação, infelizmente, está longe de terminar. o sexismo está longe de terminar, porque vivemos em uma sociedade basicamente patriarca desde sempre. então, os homens são livres, desde meninos qdo brincam na rua, enquanto as meninas fazem o que lhes cabe segundo esses homens q um dia foram meninos: cuidar da casa. não vejo um fim pra isso num curto espaço de tempo. infelizmente.
bjokas

Iara disse...

Oi! Eu sigo o Thiago no link e ele twittou o link pra este post. Gostei muito, e me fez lembrar de um que eu fiz recentemente:

http://foifeitopraisso.blogspot.com/2010/12/sobre-ferros-de-passar-entre-outras.html

Comprar presente pra criança é um desafio, mas com alguma paciência e criatividade a gente consegue.

Carla Farinazzi disse...

Olá Daniela!

Adorei esse texto!

Eu já aprendi, chego na loja e vou direto na seção dos jogos! Nunca gostei dessa bobageira de dar bonecas, panelas (argh!!), ferro de passar (eca) e por aí vai. Detesto!

Quando eu era criança, brincava de "bétia" com os meninos da rua. Apostava corrida de bicicleta e tinha meu próprio carrinho de rolimã! E que se dane quem achar estranho, rsrsrs!

Excelente texto! Que filhos estamos criando? Menininhas cor-de-rosa e meninões machistas? Eu hein!

Beijos

Carla

Paola Perazza disse...

Acho que o preconceito é maior com os meninos, uma menina até pode ser moleca, brincar de carrinhos, de lutinha, jogar futebol e correr, é um pouco mais aceitável; agora um menino brincar de Barbie é considerado extremamente inadequado.
Na infância fui menina e menino, brincava com minhas bonecas e também com os carrinhos e brinquedos do meu irmão, sempre brincávamos juntos, de brincadeiras consideradas masculinas, mas nunca das femininas. Sei que muitas meninas são repreendidas por participarem de brincadeiras de menino, mas o contrário é pior.
Infelizmente sob o ponto de vista social é menos degradante uma mulher adulta utilizar elementos do figurino masculino do que um homem se vestir de mulher, o mesmo para as brincadeiras... Ser mulher nesse ponto de vista é ser inferior, pedir p/ ser ridicularizado. Triste.
Por ter tido tanta liberdade na infância escolhi meu gênero e arquétipos visuais, sinto que pude escolher não foi tão imposto (confesso que em parte sim, impossível fugir de tanta mídia e do mundo externo).
Foi muito vantajoso e libertador brincar das duas brincadeiras, sou meio homem, meio mulher psicologicamente. O que todos somos, mas logo cedo nos impõe um caminho.

ps. puxa... as meninas brincarem de casinha, com vassourinha? Isso é degradante pra caramba. :/

Marisa disse...

Se quem determina os brinquedos é o mercado, o que determina o mercado é a demanda, ou seja, a demanda determina os brinquedos. Quanto mais gente deixar de comprar esse tipo de baboseira, menos delas serão feitas. Se ainda pensar em comprar o presente pra menina, faça isso - e ajude a contribuir com essa boa demanda.
Meus brinquedos favoritos quando pequena eram um castelo rá-tim-bum de montar (parecido com lego), uma bóia do dino, soldadinhos de metal, um daqueles tapetes de dança - todos eles livres de rótulos de gênero, então você ainda tem boas opções que essa vendedora insossa não lhe mostrou. Tive motoneta, patins, patinete. Me lembro que as outras meninas tinham também. Ou fomos excessão, ou é essa geração nova que está tendo essa divisão mais pronunciada.
Meus únicos brinquedos "de menina" que eu gostava eram uma boneca Meu bebê (porque sempre quis ser mãe, e acho que não preciso não querer ser mãe para ser feminista, preciso?), e uma boneca da Pequena Sereia - porque adorava o desenho. Na verdade, entendia errado - achava que era sobre como era importante não abrir mão da voz própria. Considerava o príncipe secundário. Todos os meus Kens acabaram sem membros corporais - mas juro que não faço mais isso. ;)

rita disse...

Os brinquedos propostos para meninas e meninos são um importante veiculo de modelação de papeis sociais como muito bem sabe e a luta para derrubar mais essa barreira só me lembra o duelo de D.Quixote com os moinhos de vento. De resto é bom não esquecermos que vivemos em sociedades profundamente sexistas e só à superfície é que o sexismo é beliscado, no fundo ainda temos uma longa jornada pela frente.

Renata de Oliveira disse...

Adorei, Girassol.
Eu sempre dou livros de presente, até mesmo antes da criança aprender a ler.
E evito livros da Disney, especialmente de princesas cor de rosa.
Mas as vezes é difícil, né? Ainda mais para filho dos outros.
Outro dia falei para minha afilhadinha que ia comprar um carrinho de controle remoto de presente para ela, e ela me disse que que não queria, que já tinha o carro da Barbie...
Mas, pelo menos, ela adora os livros, e uma vez dei uma guitarra de presente, ela adorou!
Bjs!

Gi disse...

Oi Daniela! Gostei do post! Sou mãe de uma menina e de um menino! Crianças de 2, 3, 4 anos adoram brincar de casinha e imitar o que eles vivem, estão grande parte do tempo em casa... viu que escrevi crianças? pena que muitos pais tenham essa visão sexista.... convivo com meninos que brincam de ballet, minha filha brinca de astronauta, meu filho brinca de casinha e com qse dois aninhos adora sair varrendo a casa com a vassourinha de brinquedo... eles montam lego, quebra-cabeça, ouvem histórias de tudo: princesas, monstros, exploradores, sobem em árvores, pedalam e correm... confesso que é difícil criar as crianças assim, misturando o azul com o rosa... e pq menino não pode ganhar panelinhas ou joguinhos de chá? ou não podem ter barbies? aliás, já apresentei minha teoria de barbies aqui em casa: barbie é igual às pessoas normais, qdo está na tv é super penteada (não digo linda, porque não no mundo coisa mais linda que gente descabelada e feliz)... na vida real, ou seja, em casa brincando, ela fica descabelada, suja de terra e canetinha... e deve ser muito melhor ser assim que estar numa caixa impecável sem fazer nada! lembrei que em uma festinha de criança, uma menina não podia muitas coisas pq tinha feito chapinha e a mãe não a deixava se bagunçar... vontade de denunciar uma mãe dessas? para mim isso é um tipo de violência contra a infância... esse assunto é infinito...

Carla Jaia disse...

Confesso que lembro com carinho de minhas brincadeiras de bonecas - inventava mil maneiras de se contar histórias com elas; bonecos e bonecas são, pra mim, coisinhas de contar histórias. :) E lembro com carinho tb dos jogos de montar, um em especial que era com peças de metal cheias de furinhos e parafusos e ferramentas outras. Fazia mil coisas com aquele brinquedo.

Incomoda-me tb essa separação. Não as bonecas em si, mas o fato de serem para meninas. E servirem pra brincar de mamãe e roupinhas. Ou seja, tudo o que está agregado a essas bonecas - as quais os meninos não podem tocar.

Brincar é criar e seria maravilhoso que as crianças pudessem criar mundos mais diversos, e não apenas um mundo que é considerado restrito ao seu sexo.

Adorei o texto!

Camila disse...

estou pensando na pobre bate-palminhas que morreu afogada, hehehe...
ótimo texto, Dani.