quinta-feira, agosto 05, 2010

A hora da Estrela: A exclusão leva a falta de comunicação e a invisibilidade do outro.


A hora da estrela da escritora Clarice Lispcetor conta a história de Macabéa, uma jovem nordestina de dezenove anos, semianalfabeta , que viera com tia, sua única parenta no mundo, para o Rio de Janeiro. Com dificuldade de comunicação, em meio de sua miséria humana, Macabéa se emprega como datilografa numa empresa roldanas, e gastas suas horas ouvindo a a Rádio Relógio, especializada em dizer as horas, analogamente demonstrando a escassez de linguagem que a converte num ser totalmente diferente no mundo em que procura sobreviver.

Macabéa vive em um constante monologo, o único contato com a comunicação é a Rádio Relógio e mesmo assim não existe possibilidade de resposta e nem interação. Ela é solitária e vazia. Apesar, de namorar Olímpico de Jesus, nordestino também. Por não ter nada que ajudasse Olímpico a progredir, ela o perde para Glória – sua companheira de trabalho-, que possuía atrativos físicos que ele ambicionava numa mulher
.
O que mais chama atenção no livro é a dificuldade de comunicação da personagem principal: Macabéa com os outros personagens. O livro realmente é uma viagem interior, pois os diálogos mais ricos são dela consigo mesma. Quero destacar aqui um trecho da obra, quando ela decide procurar um médico, por sugestão de Glória. Na verdade, a amiga lhe indica um psicanalista, mas ela não entende e decide procurar um médico.

O fato é que não há comunicação entre Macabéa e o médico. Os diálogos são entrecortados e as perguntas respondidas com desinteresse por parte do médico, de forma, que ao falarem, logo são impelidos pelo vazio. Não há troca de informações, não há dialogo. Apenas falas mecanizadas que geram mais frustração na nossa heroína. No caso, essa deficiência ocorre por falta de interesse do profissional, pois ele sabe que Macabéa era miserável em todos os aspectos( e não lhe oferece uma chance de inclusão), no entanto, não se esforça nada para ser entendido pela jovem, ficando evidente a desconsideração da figura do outro por parte do médico, devido a moça não se enquadrar num determinado padrão(social, estético e outros). Macabéa não compreende o diagnostico e sai da mesma forma que entrou. E assim o abismo entre a moça e os outros personagens vai aumentando no decorrer da narrativa.

Glória, talvez por certo sentimento de culpa - afinal, roubou o namorado da amiga- sugere a Macabéa que vá a uma cartomante. A nordestina vai, então, à cartomante constata que moça era muito infeliz, lhe jura um futuro maravilhoso, já que ela deveria casar-se com um belo homem loiro e rico, o qual lhe daria muito amor.

Macabéa sai da casa de Madame Carlota explodindo de felicidade, encantada com a possibilidade de existir. Então ao atravessar a rua é atropelada por um luxuoso Mercedes Benz. Talvez nesse momento ela descobre sua essência, pois é na morte que ela tem consciência de si mesma repetindo sem parar que ela existe: eu sou.

TRILHA SONORA DO DIA - VOU TE LEVAR COMIGO - BIQUINI CAVADÃO - A trilha sonora do meu dia é para ele. Na verdade, queria escrever p ele, mas tô sem coragem. Tenho medo dele. Tb tenho medo da NOSSA COMUNICAÇÃO. Existe uma Macabéia viva em mim.

Um comentário:

Tiago leal disse...

Adoro esse livro. Sempre que posso, recomendo a leitura. perceba que apesar da Clarisse ter morado no nordeste, se casou com um diplomata e viajou o mundo. Sempre falou de sentimentos que afligiam sua alma, mas nunca de cenários e de relações entre as classes sociais. Ela era uma Rapunzel tentando desembaraçãr os próprios cabelos mal percebendo a altura da sua torre. Em "A hora da estrela", Clarisse deixa as tranças caírem pela janela e convida os habitantes do mundo lá de baixo para subirem a torre.

Lá estão Olímpico de Jesus e Glória, ambos semi-deuses. Nesse momento ela percebe sua incomunicabilidade e se torna Rodrigo SM (sado-masoquista).

Só consegue visitar a branca de neve disfarçada de pobre e velha. Despe-se do luxo, envenena a maçâ e não por maldade mas por pena, mata Macabéia por não ver melhor solução para o problema criado por ela mesmo.

Há uma bela música do Pato Fu sobre o mito da nordestina que vira estrela quando morre. Chama-se A Hora da Estrela http://migre.me/12AUA

PS: adoro o modo como vc escreve