quinta-feira, julho 15, 2010

A Jangada de Pedra – A construção da identidade e de muitas vozes




No livro A Jangada de Pedra, do escritor português José Saramago (1922 - 2010), a Península Ibérica se desliga do continente europeu e sai navegando oceano Atlântico afora, numa viagem alucinada, com subidas, giros e descidas. Por meio dessa viagem, vai se trazendo à tona, com requinte e ironia, o problema da identidade do povo português, simultaneamente com a criação dos magníficos personagens Maria Guavira, Joaquim Sassa, Pedro Orce, Joana Carda, entre outros.

Saramago, como um bom conhecedor e subversor da língua portuguesa, tem como característica a construção de parágrafos grandes, os quais exigem muito do leitor, principalmente cumplicidade e fôlego, pois sua pontuação não obedece a normas gramaticais. Os períodos são curvilíneos e sempre voltam ao ponto inicial. Contudo, não perdem a beleza e ganham mais riqueza linguística; pois, diante de tanto rodeios, ele retrata um ser humano cíclico. A vida é assim também.

A Jangada de Pedra de Saramago é um livro muito atual, apesar de ter sido escrito em 1986. Aborda questões de identidade dos povos, as quais são importantes discussões num mundo globalizado e individualista como o atual. Saramago consegue traduzir com genialidade a angústia da segregação do povo lusitano dentro da Europa. O romance se inicia quando Portugal se separa da Europa e navega à deriva pelo mar. Parafraseando Fernando Pessoa – um dos escritores preferidos de Saramago –, navegar é preciso e encontrar-se a si mesmo também.

Saramago, nesta obra, também nos mergulha em questões de cunhos existenciais, como “para onde vamos”, “o que nos move por dentro” ou mesmo “quem somos”, sendo esses problemas filosóficos para os quais ainda não temos respostas concretas. A sua jangada vai se construindo como um local para muitas indagações, principalmente por parte do narrador que, alegoricamente, expõe sua oposição à adesão de Portugal à União Europeia (lembrando que o livro foi escrito em 1986, nesse ano Portugal e Espanha integraram o Mercado Comum Europeu, antecessor da União Europeia). O romance é recheado ainda de discussões sobre o escritor e a escritura, tornando linguisticamente o livro uma joia rara. Ou seja, a palavra como expressão do homem em diferentes formas, levando-o à construção de uma identidade: o homem entregue a si mesmo.

Em A jangada de Pedra, Saramago deixa transparecer o construtor de impossíveis utopias, dando vida a um romance que vem sendo interpretado como uma alegoria antieuropeia, pois no livro ele antevê a fictícia união da Península Ibérica, da África e do Brasil. O livro é fascinante e é mais admirável ainda pela forma como o autor manuseia as palavras e as arquiteta num ambiente fictício e fantástico, embora tão real. Saramago brinca com as palavras e engana a gramática. Além de demonstrar as preocupações com a União Europeia, o livro instiga muitas reflexões sobre o “ser” do homem no mundo. Por meio das interações das personagens, as ações, o tempo, e o espaço, combinam-se de modo a compor um painel de miséria e grandeza humana.

A Jangada de Pedra, sem sombra de dúvidas, é um dos mais belos romances escritos em língua portuguesa, tornando-se quase uma leitura obrigatória, já que trata de questões existenciais humanas, além de abordar o conflito entre ibéricos e europeus (a segregação de povos dentro do mesmo continente), tendo sido construído a um só TEMPO na sua essência verbal e no próprio nome do romance. Afinal, como se constroi uma jangada? Nunca de pedra...Dani Bueno

2 comentários:

WiLL disse...

Dani, vc sempre dando mais q dicas, resenhando mtíssimo bem! é pra dar vontade de ler mesmo!!!
linduxa, vc vai me emprestar esse livro, e o do Poe hehehee
bjokas

Sérgio Freire disse...

Perfeito! =)