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terça-feira, outubro 30, 2012

O uso da palavra AMANTE


Eu gosto da língua. Gosto de todos os usos e abusos deste órgão muscular. É dele que se inicia a vida: o paladar para as coisas mundanas e o verbo...Gosto das articulações da língua na boca quando as pessoas falam. Geralmente presto muita atenção porque é um tanto sensual ler antes  o som da língua...a boca. 

E por gostar da língua e todo seu campo semântico ( inclusive o mais pornográfico) , eu amo na mesma intensidade as palavras e suas etimologias. Ontem, por exemplo, me peguei pensando na palavra AMANTE. Ai...Este latim vulgar de quem ama, amador, apaixonado...ai esse latim que me indica exatamente o que o que sou: UMA AMANTE DA VIDA. Uma amadora nata. Amadora para coisas da vida. Mas que ama...no limite.

Confesso... Não gosto do valor que a palavra adquiriu durante os anos de uso: caso extraconjugal, amasia, enfim este uso é reduzir a possibilidades de amor, né? Mas o fato é  que a sociedade não sabe amar, então se utiliza de vocábulos bonitos como AMANTE para desmoralizar o amor.  

No uso ordinário da palavra amante eu já estive dos dois lados. Já fui amante e já fui traída. Acredito que todas as mulheres deveriam passar por esta experiência, porque é rica. Ser traída também é interessante, porque te tira da zona do conforto e te faz (re)pensar em quebras de paradigmas e não se achar ao última bolachinha do pacote ( te faz perdoar e ser mais terna). Trair te traz a feminilidade máxima e o desejo de ser uma devoradora de homens (também é ótimo e sem ser hipócrita uma maneira interessante de amar sem amarras sociais). Talvez a monogamia seja uma utopia...não sei. Todavia sei que há pessoas que controlam o desejo sexual e são monogâmicas por opção e assim são felizes... Assim como resistir a um bolo trufado de chocolate com nozes porque ele vai te engordar... e  muitas vezes o sabor não compensara as  calorias ingeridas, não diferentemente é no sexo, né? Ou seja são escolhas individuais e sem julgamentos de cada um...Cada um leva a vida da forma que quer...da maneira que vai a sina do seu coração. Sem precisar necessariamente ser carimbado ou taxado. Evitemos rótulos.

Mas é o uso não abusado e extraordinário da palavra AMANTE que eu tanto AMO. E eu  como boa amadora sei que sei amar... Porque eu sou uma amante do mundo... eu amo tanto que dói o âmago. Amo sem limites, pudor, magoas, interesses... Amo simplesmente. Amo a lua cheia, a minguante, a nova e a crescente. Amo o sol e os girassóis, os guarda-chuvas e o carinho da proteção. As pessoas, suas dores, alegrias e sonhos compartilhados. Ser amante me levou a entender amarant (do grego - Amarantos)...e mais que amante sou amarant. Porque o que sinto não murcha, não é efêmero. O que sinto sou eu na essência. Amemos então... Conjugando o verbo amar e sendo amante como as inflorescências... Elas  são boas amantes.  

 TRILHA SONORA DO POST - FUTUROS AMANTES DO CHICO BUARQUE 

segunda-feira, outubro 08, 2012

Sobre Futuros e Pretéritos


Desde os primeiros anos escolares eu sempre tive dificuldade de compreender o tempo e consequentemente suas ações. Porque para uma criança de 8 anos aprender ação e tempo é meio surreal, ainda mais quando se tem uma escola que não ajuda e nos manda a decorar verbos – sem apostos ou dois pontos para uma explicação...só ponto final, sendo isso e ponto -, como se o tempo fosse algo para ser decorado ou linear. Triste, né?

Bem...essa minha dificuldade temporal/verbal se arrasta até hoje de forma diferente, porque hoje compreendi que não deveria nunca haver futuro do presente...porque ele não existe. O que há é uma possibilidade de tempo futuro lá no pretérito. Nada mais. Como diria uma grande amiga que morreu cedo demais, a Marina, o único tempo perfeito é o AGORA. É isso que se escreve na minha gramática neste momento, a minha linha do tempo torta sem modos, número, pessoas, tempo, voz só no: pretérito imperfeito, PRESENTE, futuro do pretérito...Ah! E tem o subjuntivo... sempre cheio de desejos e dúvidas. Tão humano esse modo, né? Mas isso é outra história...a do talvez.

Por que só os três tempos? Porque nunca uma ação é finalizada de fato, a não ser a morte...sempre a possibilidade de um retorno. E hoje me dou esse direito de não ser nada PERFEITA. O presente acontece neste momento que digito as letras, e agora já é passado...tão imperfeito porque este texto é aberto, nunca fechado e eu posso voltar aqui, mexer e mexer e brincar com o tempo. O futuro...sempre seria assim: Eu queria, eu teria eu seria...Afirmar que terei sempre seria errar...Porque a vida é roda vida.

Talvez, talvez bem subjuntivo, as crianças tenham essa noção e por isso aprender tempos e modos verbais seja surreal ainda...porque é no uso, na vida que se conjuga e que se entende a si e a humanidade.

Agora não tenho futuro, nem passado perfeito...Tenho uma página em branco sendo escrita, cheia de borrados, anotações que a todo tempo posso apagar e retomar...Não tenho futuro porque tenho sonhos demais. Uso e abuso dos meus desejos e ideologias porque eles que constroem a minha maior conjugação a de ser eu...

Sobre as pessoas, número e voz...Tenho evitado a primeira pessoa e o singular..Alias tenho aprendido que o singular é manco. Desde algum tempo tenho conjugado tudo na primeira pessoa do plural: Nós. E mais...tenho aprendido como é lindo dizer de nós...como é rico. Sobre vozes...só uso a ativa. Porque de passiva eu nunca seria nada. Tenho medo de sujeitos passivos. E a cada momento que teço essas letras percebo como a língua é parte da gente, da vida, dos nossos sonhos e angustias. Percebo que ela nos liga ao mais humano de nós...E ai vem alguém e segrega tudo, talvez porque entender o funcionamento da língua nos torne mais humanos. Voila...Sigamos, sem futuro e com um passado aberto e vivenciando o presente, porque é nele que mora o momento e a possibilidade da felicidade, de esquecermos que estamos vivos, porque quando há ela é assim...não existe noção de tempo, espaço ou mesmo existência.

É a língua que me mostra ambiguamente como ser uma pessoa melhor e conjugar minhas ações atemporais, as quais uma norma sem descrição jamais compreenderia...

PS: Este texto não teve revisão... Porque nesse momento de sentido não há revisão, talvez num futuro pretérito existirá, mas não agora...

Trilha Sonora do tempo: Roda Viva - Chico Buarque


sábado, outubro 15, 2011

Eu também quero ser professora. #DiadoProfessor


Lembro-me que a primeira vez que percebi que eu queria ser professora foi  cursando o curso de comunicação na UEL. Estava fazendo o Trabalho de Conclusão de Curso com duas amigas e nosso tema era voltado para comunicação e educação.  


Foi a primeira vez que li Paulo Freire na vida. Eu devia ter uns 21 anos... Li “ Educação como prática da liberdade”, “ A pedagogia do oprimido” e “Extensão como comunicação” e vou confessar: foi paixão a primeira vista/lida, dessas avassaladoras...que tiram o ar e deixam a gente sem complemento. Porque para mim sem paixão não é possível ensinar e aprender de fato. É nas nossas paixões que somos mais verdadeiros e nela mora o desejo da comunhão com o outro. 


Por isso eu me considero mais educadora do que Relações Públicas. E, talvez por essa aceitação, sinto-me mais humana e orgulhosa de minhas escolhas. São nas minhas paixões que eu começo a existir de fato. 


Algumas considerações sobre o professor, escola e sistema 

Hoje em dia o próprio sistema capitalista desvaloriza, infelizmente, o professor. Percebemos esse fato no dia a dia, nas conservas de bares, supermercados e com a família. E essa desvalorização que passa pelo campo social, filosófico, econômico e cultural desmotiva o professor a lutar pela educação. Quando penso em professores não penso em pessoas técnicas e sem em revolucionários, os quais terão influência decisiva na vida dos alunos. Principalmente nos primeiros anos escolares. 


O professor deveria ser formador de cidadãos, mas para isso – hoje- ele necessita primeiro reconhecer sua própria cidadania, a qual também é esquecida devido a tanto desprezo da sociedade.  Só  assim ele realmente poderá transformar a escola formal em uma alavanca de mudança social. Porém, sabemos que nosso próprio sistema não quer isso... Por isso a luta é árdua e exercer a democracia cansa. Todavia é preciso coragem e força para continuar...Afinal são nas adversidades que estão as melhores lutas.

Para mim todo professor deveria ser um educador nato. Pois como educador ele formaria cidadãos que teriam autonomia e quiça poderiam consolidar a sua participação nos processos e movimentos sociais que é o que constitui verdadeiramente uma democracia.


Mesmo com algumas transformações na área educacional. Ainda vemos muito hoje aqueles professores de “ educação bancária”, aonde o aluno só é um mero receptor estático , além disso, os conteúdos são desvinculados do seu cotidiano. Como linguista sempre bato nesta tecla: é preciso  criar paixão pelo aprendizado,  o aluno deve se sentir incluído e perceber que o conhecimento também é aplicado em seu dia a dia. 


Infelizmente ou não (depende da ótica),  a criatividade e o diálogo são fatores decisivos na educação. Sabemos qeu o sistema não os valoriza. Ai cabe a cada educador formulá-los em suas aulas de maneira em que o aluno participe, dialogue, ensina e aprenda. Parafraseando Paulo Freire a escola ainda não gerou homens de diálogos porque ele  impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homo sapiens.


Desejo amor, coragem e força a todos os educadores. A luta é diária.

sábado, junho 25, 2011

A imaginação faz a diferença na hora do aprendizado

Ontem estava pensando sobre os professores das séries iniciais. Porra! Eles são os mais importantes da vida de qualquer individuo e são os menos preparados, os mais mal remunerados e os mais desvalorizados. Estranho isso...pois um professor do ensino infantil/fundamental guia/direciona, de certa forma, o perfil do aluno e dos seus gostos dentro da escola para vida toda. #injusto com as crianças e também com os professores.

Na verdade eu pensava – em particular - na minha infância e em como meus professores destruíram minhas carreiras: astronauta, cientista, cineasta, atriz , caixa de supermercado e etc. Estes mesmo professores me afastaram da matemática, a qual hoje redescobri e a amo com tanta paixão que se essa atração ocorresse na infância tudo poderia ser melhor. É Talvez seja isso...Talvez a segregação do conhecimento seja o maior erro da Escola formal. Mais que isso; o desrespeito com a individualidade/subjetividade de cada aluno. Cada um tem uma bagagem ideológica que vem da educação informal e que também vai adquirindo no dia-a-dia com os amiguinhos, brincadeiras, músicas, livros, TV, jogos e internet.

O conhecimento não é exato. O universo não é exato. Por que na escola trata-se o ensino como exato, sendo ele uma TEIA ( interdependente de todas as áreas de conhecimento). Por que é tão difícil conceber que o conhecimento se constrói e muda diariamente?

Por isso sempre acabo voltando nas questões linguísticas. Pois a forma que se ensina a Norma Padrão exclui todas as outras formas de conhecimento, principalmente a imaginação. #triste “ A imaginação é mais importante que o conhecimento” Einstein Sei bem a importância desta máxima do cientista...sei bem...

Dentro deste contexto lembrei-me de um fato que ocorreu comigo e com a Maria Júlia (filha da Isa – minha prima e professora de francês -). Na época da campanha eleitoral para presidente. Eu tava a todo vapor na campanha da Dilma na internet. E a Maju se interessava em saber da Dilma e gostava de me ouvir falar da presidenciável. (só para constar: A Maju tinha, em setembro do ano passado, 6 anos. ) E ela pegou a mania de escrever o nome da Dilma em todas as coisas: bolsas, estojos e tudo que tava em sua frente. Porém algo começou a me chamar atenção: a forma que ela escrevia Dilma. E confesso: achei genial. Ela grafava assim: DIULMA. Sacaram? RS Olhe que garotinha mais esperta e sabida! Ela tinha dúvidas, por isso optava pelas duas formas. Essa dúvida é comum, pois no Brasil não sonorizamos o “L” como os nossos irmãos portugueses, ou seja, pela nossa fala tupiniquim –e com orgulho!- tudo parece som de u. E ela para se garantir escrevia os dois. =)

Eu fui deixando...Um certo dia ela me perguntou, qual era a grafia correta. Eu expliquei para ela que escrevíamos Dilma, apesar de falarmos Diuma. Mas a parabenizei pela alternativa criada e complementei que apesar de falarmos o “u” escreve-se o “L” porque a Dona Norma – uma senhora metida a sabidona - instituiu isso e que lá em Portugal, nossos irmãos falavam o som de “L”. Repeti para ela como os portugueses sonorizam o “ L”. A Maju me disse sabiamente que aqui não falávamos assim. Eu disse não e expliquei mais uma vez que por isso sentíamos dificuldade de escrever  com “ l” ou “u” e que isso não era vergonha nenhuma.

Ai como sou boa contadora de “ causos” e lhe contei uma história – que inventei na hora- de uma portuguesinha de 9 anos que se mudou para o Brasil. E que ficou apelidada de “L” por sonorizar a letra em tudo...Mostrei para ela que a Dona Norma – a vizinha chata – institui a grafia uniforme para a criançada da rua entender o que a portuguesinha escrevia. E que essa uniformização da escrita era importante para registro histórico, mas que o modo de falar era igualmente importante. E para minha surpresa ela me disse algo mais genial ainda: Ai! Dani, a Dona norma nem é tão chata assim, pelo menos agora eles vão se entender. Quase morri de emoção. Sacaram? Uma garotinha de 6 anos teve a perspicácia de perceber que a Norma é importante, mas não é tudo. Lindo, isso não? Eu quase choro. =)

Dentro da historinha também comparei as diferentes culturas e disse que todas mereciam respeito e que nenhuma era melhor que a outra. Claro que eu usei meus dotes de atriz para encenar a narrativa. Percebi que ela se divertia, ria e que aprendia a diferença de maneira lúdica. Caraio! É cansativo tentar auxiliar uma criança a entender o conhecimento. Dá canseira. E haja imaginação!rs  Não é fácil não, por isso é preciso muita disposição e amor.

Também acho difícil explicar para uma criança de 6 anos que u é usado no final da palavra quando ele vem sozinho e é tônico, ou que o L é usado quando a silaba final é tônica, mesmo no meio das palavras. Mas ai vem a saudade e acaba com a gente...Literalmente, não? Eita palavrinha foda...na vida e na língua. Ops, mas vida é língua. =) Por que a vida traz tantas exceções? Porque no fundo buscamos as excecoes...Tá vendo como não dá para separar língua e vida. =)

Conclui neste meu processo de aprendizado ( porque aprendi mais com ela do que ela comigo) conhecimento sistematizado da língua deve ser trabalhado sim – é importante-, mas uma criança de 6 não entenderia isso...#fato Percebi que com o conto e com outras alternativas como: leitura, filmes, músicas e outras; as questões entre a fala e a escrita começam a andar de mãos dadas e serem compreendidas no contexto social de cada pessoa. Porque ela começará entender que a sua vida é a sua língua. =)

Nota da aspirante a professora: quero abordar um fenômeno vivo na língua falada que percebo diariamente na fala das pessoas: elas não falam proparoxítonas ( inclusive os ditos cultos). Eu tinha uma baita dificuldade de entender esse negocio na escola. To preparando um post. E como hoje é “sabo” fico por aqui...
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sexta-feira, junho 17, 2011

Como destruir sonhos e uma carreira promissora com uma pitada de preconceito linguístico.

             João um garoto de 8 anos, curioso, serelepe e muito comunicativo. O garotinho é um “expert” em computador. Sabe mexer em sistemas operacionais como qualquer gente grande e sabe bem a diferença entre estes sistemas, por isso já com tão pouca idade é um entusiasta do Linux – software livre -. João também domina programas gráficos como qualquer publicitário ou profissional da área. Sempre tem idéias mirabolantes e desenha tudo que lhe vem à mente com habilidade e muita imaginação

         Ontem ele teve a idéia de desenhar uma casa. Na verdade ele pensou em projetar sua casa no futuro – quando ele se tornasse gente grande -. Usou e abusou dos recursos tecnológicos. A casa depois de pronta parecia um projeto arquitetônico profissional. Chamou os pais para apreciar a obra de arte. A mãe veio atender ao pedido do menino. Olhou, olhou, franziu a testa e disse: 

        - Tá bonito. Mas “casa” é com s e não com z, seu burro!  


        O menino chorou e deletou o desenho. 

Relembrei deste fato porque na aula, hoje, de francês a Isa trabalhou comigo o primeiro capitulo do “Petit Prince”. E em algumas questões que ela me levantou ( claro – tudo em francês- porque agora eu sou chique e até já leio em francês. #modesta ), percebi o quanto um erro destrói todos os acertos de uma vida toda, ou de uma vida que está se iniciando. Isto é cruel, não? #DepressaoModeOn



Pensando linguisticamente e estilisticamente penso que a licença tá ai para ser usada/abusada... Ensinar grafia correta das palavras é necessário, todavia violentar uma criança da forma que a mãe fez – acima- deveria ser crime, inclusive contra direitos humanos e de livre expressão.



Esta questão da fonética é um problema para tod@s nos primeiros anos da alfabetização. Inclusive para mim. Quando eu era criança sofria horrores com essa história de se emitir um som e escrever outro. É difícil para o imaginário infantil conceber tal separação. E o que mais me irritava era a explicação simplista da professora. É assim porque é a regra, Daniela. Isso nunca me convenceu... Talvez por isso abandonei as religiões, mas isso é outro post. Respostas limitantes me deprimem/frustram. Nada é e ponto... (nem essas reticências). Sempre há um contexto, uma intenção e uma história para compreender o fato e a origem das coisas, mas por preguiça alguns professores oferecem esse tipo de resposta pronta: é assim porque é. E dentro disso nasce a visão do erro, a qual reprime, humilha e não educa. E o pior, desencoraja  os talentos natos das crianças. Triste, né?


Ah! O livro ganhei de uma pessoa muito especial:

terça-feira, maio 24, 2011

Jogo de Futebol amador e as variações linguísticas

Fui acompanhar no último sábado um grande amigo a uma partida de futebol amador. Fazia tempo que ele insistia no convite e eu resistia. Talvez eu fosse tão resistente porque sabia das segundas intenções e do fato dele querer se aparecer para mim: sabe aquela coisa de macho de mostrar força, habilidade corporal e tentar impressionar a fêmea. Então... Mas eu decidi acompanhá-lo. Precisava quebrar minha rotina. Porque há tédio que leva o suicídio. #fato

Cheguei ao local e confesso que me senti um pouco deslocada, pois eu era a única mulher, essa falta de companhia de gênero me intimidou um pouco. Enfim, timidamente eu sentei na arquibancada e comecei a apreciar a partida, e logo fui me soltando e olhando os bofes a exibirem seus corpitos – E que corpos, mon dieu! -. Alias, eles sempre me olhavam e isso aumentava consideravelmente minha libido e minha curiosidade. Rá!

Na verdade eu sou o que se pode chamar de observadora curiosa, e na movimentação toda o que me chamou mais atenção foi à comunicação estabelecida entre os jogadores: sempre aos gritos, mesmo um estando do lado do outro. A palavra mais usada do jogo foi “caralho”, ops “caraio”. Por que homem gosta tanto de dizer caraio? Hum?

Vou relatar alguns diálogos:
- Caraio, Diego! Toca aqui!
-Que isso, porra! Perna de pau. Caraio.
- Cario, veio. Aqui. Aqui. Aqui.
-Porra, cario. VTNC!
- Ow essa fita, veio. Cario. Era pra mim, porra!
-Cario que foda é essa. Deixou passar. Cario.

Aquele dialeto futebolístico todo começou a me empolgar, porque eles gritavam com tanta ânsia/desejo que contaminava tanta alegria. Olhe eu adoro futebol, mas a forma deles se comunicarem e se entenderem entre si passou ser minha principal observação: suas expressões faciais, a linguagem e os olhares. Tá certo que o jogo tava empolgante, por ser amador eles jogavam muito bem. =) Os moçoilos levavam o jogo a sério, como se fosse uma partida profissional, a cada corrida percebia o grito reprimido de gol e logo a frustração por a bola não entrar na rede. E o vocábulo caraio   vinha à tona como forma de libertação. Lindo! 

Num certo passe do jogo, empolgue-me e gritei:
-Caraio da porra! Foi falta.

Neste momento o jogo parou e todos olharam para mim. O silencio reinou. Eles voltaram a jogar e neste instante percebi que há variações linguísticas sexistas. Eu os assustei. #fato Por que mulher não pode falar “ caraio da porra”? Por que há palavras proibidas no vocabulário feminino desde a infância? Naquele momento entendi o motivo dos homens gostarem tanto de falar caraio, a palavra liberta das normas e padrões.

Depois de uns minutos em silêncio o jogo voltou ao normal.
O mais legal é que agora tenho um novo objeto de estudo: As variações linguísticas sexistas. Voilá! Caraio! RS

Ps: até aprendi a coreografia. =) 

sexta-feira, maio 20, 2011

Menos preconceito linguístico e mais felicidade na diversidade de ser o que se é.

Eu tava cunversanooo, hoje de manhã, com uma pessoa na rua sobre amenidades da vida e me deliciando em silêncio – as melhores felicidades são as clandestinas - com a forma de a pessoa falar. Porque a variação da línguística é algo que me encanta/fascina e empolga. Toda vez que converso com as pessoas, descubro um pouquinho de mim nelas, na sua forma de se expressar, agir e sentir. O falar caipira sempre esteve presente na minha infância. Sou neta de sitiantes, minha mãe era do sitio e meus avós paternos eram pessoas bem simples – no quesito capitalista-, porque para mim eles eram as pessoas mais ricas que conhecia e as que mais me ensinaram na vida.

A pessoa que eu conversava tinha uma marca forte na redução do ditongo, o qual quase tod@s @s falantes da língua possuem, mas não se dão conta disso. E desde manhazinha tô com a redução do ditongo “ ei” na cabeça, porque eu acordei pensando no bêjo que não roubei dele e com o coração na boca de tanto arrependimento. “O bêjo que eu dexei para lá é cheio da esperança do TEU cheiro e do sabor de desfrutar TEU corpo com quejo e vinho.” A língua me entrega para ele. A língua me revela para a vida.

Na língua falada deixa de existir o ditongo “ei” e ele se transforma na vogal “e” com som fechado. Principalmente, diante das consoantes L, X e R. Comodidade fonética. Só pra entender esse processo se chama assimilação- é quando dois sons são parecidos e a fala faz tudo para que eles se tornem um só. Tão vendo como a língua em sua dialética é parecida com nossos desejos do coração. Quando as pessoas perceberem isso, não haverá uma pessoa no mundo que não será apaixonada pela língua.

Lembrando que foneticamente as vogais são produzidas com a passagem livre de ar pela boca, já as consoantes encontram resistência. Quando eu estava me alfabetizando percebia essa diferença claramente... Eu adorava aquele exercícios de a-e-i-o-u ( a leitura e a escrita), já as consonantes eram difíceis de se pronunciar: por exemplo, a letra C ---tem som de CE. Sempre era necessário uma vogal para ela existir ou ter sentido. Assim como meu corpo é dependente dele – posso existir sim, mas não há sentido-. Por isso digo que sou consoante da TUA existência.

Atire a primeira pedra quem nunca teve dúvidas para escrever os vocábulos: caranguejo, prazeroso entre tantos outros; pois na fala pronunciamos o “i”. Eu mesma sempre tenho dúvidas, contudo para mim isso não é vergonha e admito com prazer, porque percebo na dúvida o conhecimento e uma maneira de alçar outros vôos. Portanto julgar a fala ou mesmo a escrita com o conceito reducionista de erro é no mínimo ignorância e desconhecimento da língua e de si mesmo. Falar do jeito que se escreve não significa falar mais certo. Claro que o professor deve ensinar à ortografia padrão; a forma polida da escrita, contudo não julgar certo e errado as variedades lingüísticas do idioma (não desprezar o outro). O aluno pode falar “bonito” ou “bunito”, e compreender que graficamente só há o “bonito”, porque na língua escrita há regras e ela precisa de uma uniformidade para ser compreendida, mas limitar a fala a escrita é uma burrice sem tamanhos, pois a língua é viva e como qualquer ser que possui vida, modifica-se com o tempo, contexto sócio-cultural e até humor.

Não podemos o esquecer que a língua escrita de qualquer idioma do mundo é de caráter simbólico e que para a compreendermos necessitamos entender o mesmo símbolo (assim como ícones desenhados de proibido fumar, acessibilidade, etc). Porém mesmo na escrita há transformações lingüísticas, e possibilidades de interpretações diferentes. Dá para compreender porque reduzir a língua a regras ou ao erro é tosco? Num texto literário ou poema podemos ter diversas compreensões dependendo do nosso conhecimento e bagagem de mundo (e até do momento emocional que estamos vivendo).

O que devemos entender é que não há correção no que é espontâneo, natural e delicioso na fala, pois a linguagem somos nós. O professor/educador/pais devem corrigir o que é ambíguo e inadequado na fala ou na escrita, de uma forma que a pessoa perceba essa confusão e compreenda o funcionamento da língua em sua totalidade, e principalmente, deve-se valorizar contexto social e cultural de cada um. É maravilho compreender fenômenos lingüísticos pela fala. E como descobrir toda a história da humanidade e perceber essas mudanças e m nós mesmos.

terça-feira, abril 12, 2011

Pelo direito do verbo


Todo falante de uma língua tem a tendência de reduzir as formas verbais, distinguindo apenas o eu e os outros – talvez mais que linguística esta seja uma característica humana -, sendo uma marca da fala, a qual evita repetições e o excesso de marcas (plural, tempo, gênero), pois ela é uma simplificadora da língua.

Eu não conheço nenhum falante  da língua “brasileira” que utiliza os pronomes pessoais “ tu” e “vós” no seu dia-a-dia.  Veja, não estou referindo-me a língua escrita padronizada e sim ao nosso cotidiano. Não escutamos com freqüência ninguém dizer: tu vieste ontem?  E sim, você veio ontem? Bem, o sul do Brasil utiliza o pronome pessoal “tu”, mas não flexiona a forma verbal, sendo esta, portanto, mais uma característica de VARIAÇÃO LINGUÍSTICA da região.

O verbo é o que move o mundo: eu e você. O verbo é a extensão da vida. Portanto, entender seu funcionamento é mais ou menos como aprender a viver e ter a liberdade de ser ou estar. O maior problema, no meu ponto de vista, no ensino da ação é diminuí-la a uma lista pronta e retirar aprendizado tão rico do contexto vivenciado pelo aluno. Recordo-me com tristeza do meu aprendizado verbal – foi traumático-; a professora passava uma lista de verbos: tempo/modo e a lista de pronomes pessoais para decorarmos – não éramos capazes de distinguir as pessoas ou as flexões do plural, era uma coisa automática-. Era terrível. Lembro-me que havia prova oral. E se não estivesse na ponta da língua, havia broncas e gozações dos colegas de classe. Que coisa horrorosa! Para mim isso era um crime contra a educação, o aluno, professores e a humanidade, pois ações assim nos afastavam da língua e, portanto da vida. Eu achava o verbo tão distante de mim, porque era incapaz de reconhecer os fenômenos vivos da língua.  Hoje, eu sou o verbo.

Claro que na educação formal é fundamental o aprendizado da língua padrão e o professor (odeio o machismo da língua, mas isso é para outro post... rs) deve apresentar aos alunos todas as formas verbais conjugadas “corretamente”, também é importante capacitar o aluno para reconhecê-las num texto formal e principalmente, fazê-lo entender a diferença entre a fala e a escrita. O aluno precisa ter a versatilidade de saber que mesmo na fala, há situações que ele necessita adequar à linguagem.  Isso é viver e se adequar a situações diversas, ou seja, é ser educado para a vida!

O problema é que muitos professores ensinam “conjugação verbal” como se fosse a coisa mais complicada e mais distante da nossa vida possível e isso nos afasta do aprendizado das nossas ações, as quais seriam o espelho de nós mesmo. Na verdade, a cultura do erro comete uma violação de direitos humanos: exclui cruelmente do aluno sua bagagem de mundo, com isso desvalorizando sua própria vida. Pena, porque estudar/conhecer a língua é uma viagem ao nosso coração e o despertar da ação maior que é COMPARTILHAR com o outro.


Penso que o maior problema do ensino formal é desvalorizar o falar popular por uma questão de preconceito linguístico, o qual reflete no social; sem ao menos conhecer os processos da língua. Para mim, isso é ignorância. Porque conhecer a língua é mergulhar num mar de possibilidades e se despir de conceitos pré-estabelecidos, porque quando se estuda a vida é assim.  

Essa coisa de super valorizar o saber erudito é coisa de pseudo-intelectual, gente insegura, a qual adora a dar valor negativo ao que considera erro. Só que se esquece que viver também é errar; e que ações existem para serem vividas. E que se primeiro foi criado o verbo, a tod@s ele pertence.


Nota linguística: Se DECORAR é guardar no coração que toda ação nasça dele.

Nota para acordar: Um dos maiores poetas da língua portuguesa: Patativa do Assaré 

"Há dor que mata a pessoa
Sem dó nem piedade.
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade."

"Meus versos é como semente
Que nasce arriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obras da criação"

"Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá."

terça-feira, janeiro 11, 2011

Presidenta, sim!


Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que as marcas desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulopresidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta? em questões de língua declarou que a forma

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Em defesa da arte – Pedagogia X Arte Literária

A literatura é um manifesto da humanidade. E a leitura é uma experiência individual/solitária, de interiorização, reflexão e dialógica (emissor x receptor) de cada individuo, ou seja, é uma ação impar. Por isso, para mim, limita-la é um crime contra toda a humanidade.
Há algum tempo venho protelando para discorrer sobre o tema – censura literária - , todavia ontem lendo um artigo sobre este assunto no Blog do Favre – indico o blog - , o qual dizia que as obras de Mark Twain - As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn- sofreriam algumas mudanças, os editores suprimiriam alguns termos considerados preconceituosos. Confesso: enlouqueci de raiva diante tamanho desrespeito com obras riquíssimas como essas, pois mudar uma obra de arte, ou adapta-la é assassinar a natureza humana. Caramba: nós não somos maniqueístas e nem uma linha reta.
Para a blogueira suja aqui, quem pede censura a artistas/escritores não sabe o que é literatura. Desculpem-me, mas é isso que penso. Pois a arte literária está muito além de valores morais e do que é considerado politicamente correto. A arte é subversiva em sua essência: revela o pior e o melhor de nós e de toda sociedade.
O que me assusta nestes discursos da literatura com caráter pedagógico é a privação de sermos nós, de não podermos escolher qual caminho seguir e do processo de nos descobrirmos pela arte ser minado. A arte salva. Sou prova viva disso. E caso continue esta “ditadura” do politicamente correto enxergo tempos difíceis para cultura, e isso me leva a pensar no que dizia meu avô. Ele me dizia que a história era cíclica. Será?  Pois não vejo diferença entre as proibições literárias ocorridas em tempos passados da que esta existindo hoje. Censurar não é o caminho. Nunca! Dialogar sim...
Pelo que venho acompanhado pela mídia ( convencional/blogs/ministério da educação) a polêmica toda foi devido ao desaconselhamento pelo CNE do livro de  Lobato – Caçadas de Pedrinho, devido a figura da Tia Anastácia e o  linguajar racista/preconceituoso utilizado pelo autor ao se referir a personagem. Contudo quero relatar aqui minha experiência com Lobato na infância. E é devido a esta experiência que hoje sou a Daniela e também foi por ela que adquiri gosto pela filosofia, história, arte, literatura, e que sou uma pessoa curiosa, foi ele também que me apresentou Cervantes e me fez entender a importância da cultura popular e que as diferenças, seja, por raça, tamanho, formas, escolhas devem ser respeitadas e que não há pessoas melhores, nem piores: apenas pessoas.  Também foi a partir da leitura na infância de Lobato que comecei a me tornar “comunista”, inspirada pela figura da boneca revolucionária Emilia, a qual foi criada pela Tia Anastácia, será que isso foi por acaso? Acredito que não...
A literatura realista/naturalista/contemporânea é o relato, a imitação do que a humanidade é, ela dói, machuca, apaixona e depois liberta. E se sentir incomodado com a realidade é não querer se admitir falho/limitado/finito, ou seja, humano. 
 O texto literário não é educativo e se fosse não seria arte e sim um livro de pedagogia ou de educação moral. Gente, é importante à literatura assumir seu caráter artístico e ser livre para isso. Porque senão daqui uns anos estarão proibindo nas escolas grandes nomes de literatura como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Saramago, Twain, Dostoievski, Kafka, Camus entre outros. Eles são todos subversivos. #ficaadica  Fico pensando na leitura da obra de Marques de Sade: ler “ Filosofia na Alcova” daqui uns anos causará prisão/perseguição, não é? Voltamos à idade média? Ou a sociedade não é madura para discutir as diferenças entre a pedagogia e a arte? Ou não é capaz de tolerar a verdade  contida na  arte? 

A perda da força artística em favor do viés pedagógico é lamentável, talvez, por isso haja tão poucos leitores hoje em dia. #ficaadica Na literatura o professor é apenas um mediador, pois a experiência é pessoal. E nada mais violento  para mim do que alguém entrar na minha terapia sem minha permissão. É! Comparo a literatura com a terapia sim...pois a literatura me revelou a mim mesma, portanto é um o  processo de interiorização e reflexão. E caro companheiro, ações assim tão intimas ninguém faz ou sente por nós.
Ah! Claro que considero textos com viés pedagógico importantes para serem discutidos na escola, mas não os chame de literatura/arte.  Trabalhar temas polêmicos  com alunos é fundamental para sua formação, mas também é importante respeitar o conhecimento de mundo do aluno e os valores que ele já carrega em si. Sem isso: respeito,  tudo se torna uma ditadura.
Se hoje sou uma defensora de direitos civis/humanos é devido à literatura. Por isso, censurar escritores ou adaptar suas obras é um crime contra a humanidade e a liberdade de sermos nós.

terça-feira, dezembro 28, 2010

O preconceito linguístico existe para ser alicerce de um dos maiores preconceitos: o SOCIAL.

Ontem, visitando um amigo deparei-me com uma situação cotidiana a qual me incomoda muito. A irmã do amigo estava na  casa dele com o filho – aquelas visitas, rotineiras,  de final de ano. Um garotinho sapeca, bonito, curioso – como toda criança – ele não parava de perguntar coisas, questionador na essência, corria para um lado e para outro, confesso sentia-me tonta com tanta vitalidade. Mas gostava do que via... Sempre penso que toda criança é um cientista em potencial. E esse pensamento consola-me diante a mediocridade do mundo.
Eis que o menino grita para o tio:
- Tio, cê vai trabaiá hoje?
O tio carinhosamente diz:
-Não, meu querido.
E a mãe ouvindo a conversa, grita como uma louca. Confesso: Até eu fiquei com medo da mulher, agora imagine uma criança de uns 9 anos. Quanto trauma, Mon Dieu! Será que é por isso que protelo em ter filhos? Tenho medo de me tornar assim? Rs
-Já te disse que se fala TRABALHAR  e não trabaiá. Quem fala assim não tem cultura.
O menino respondeu sabiamente.
-Mas, meu vô tem cultura e fala assim.
A mãe não dialogou e disse:
-Eu já disse que é TRABALHAR  e quem fala assim é gente burra e pobre. Ponto final.
Eu e meu amigo arregalamos os olhos, sem muito poder fazer e chamamos o garotinho para jogar  Imagem e Ação.
Conversamos com ele e tentamos explicar de forma lúdica que o que ele falou não era errado.
Confesso: Toda vez que ouço comentários assim, como o da mãe do menino, tenho vontade de voar no pescoço da pessoa. Todavia eu prego a tolerância, tenho que ser então...Decidi respeitar a todos. Mas, tem horas...Pô! Sou humana! O que me deixa “louca” é o preconceito do erro sem ao menos explicar para o garoto o funcionamento da língua, ou seja vomita a cultura do erro, sem ter conhecimento da causa. Triste isso, né? Na verdade, ela ta formando um filho cheio de preconceitos. Porque quando ele ouvir “trabaiá” vai lembrar da bronca e do sermão final isso é coisa de gente pobre e burra. Lamentável!

Eu disse para o garotinho o seguinte:

- A nossa língua tem vida. Talvez sua mãe não saiba disso. Ele respondeu prontamente. E eu adorando, pois dialogar com crianças me faz um bem danado. Aprendo muito...
- Dani, como viva? Ela vive? Eu disse:
- Sim. E como a gente ela vai mudando com os anos. Nasce bebezinha, vai crescendo e se modificando. Você é igual quando  nasceu? Ele respondeu:
-Não. Eu era gordinho, loirinho e tinha cabelo liso. E agora sou magro, cabelo mais enrolado e castanho. Eu sorri e disse:
-Tá vendo. Com a língua também é assim. As palavras vão mudando se adaptando aos tempos. Consegue compreender? Ele disse:
-Sim. E além do mais meu avô tem cultura.
Eu sorri e disse:
-Claro. Todo mundo tem sua cultura e seu valor. Há muitos tipos de conhecimento e todos são importantes. Tem o conhecimento que a professora na escola te ensina, o que você aprende com seus pais/avós/amigos e o que você busca porque gosta. Por exemplo, o que você gosta de fazer?
- Jogar games. E eu sei tudo sobre eles. Leio tudo.
Eu disse:
- Ta vendo é o conhecimento que você adquiriu por suas experiências. Tão importante como os outros. Falar travaiá também é algo que se transformou durante os anos. Eu vou pesquisar melhor e agora irei te explicar somente o que lembro. É importante você aprender o português na escola, pois lá você vai aprender a escrever melhor e se comunicar em situações mais formais. Ele sorriu. E eu continuei
-A transformação do “Lh” em “ i” acontece por inúmeros motivos, na nossa linguagem falada ( a que não usamos na escola)  não existe o som consonantal LH. É mais fácil e gostoso dizer teia, não? Ele sorriu e disse:
-Sim. Eu continuei.
-Você ta fazendo inglês né? Ele respondeu:
-Sim.
-Então...No inglês existem sons que nem na língua que aprendemos na escola, a chamada língua padrão existe e nem por isso é errado falar inglês, né? Ai, sabe aquele r do caipira...Ele é muito usado no inglês. E aqui as pessoas riem de quem fala “ porrrrta” Que bobagem, né?
-Já riram de mim por falar assim. Mas agora que você falou do inglês vou falar para eles. Assim ninguém tira sarro. Eu sorri e disse:
-Eu estou estudando francês. Alias você sabia que o francês e português são línguas irmãs, elas vem do latim vulgar (era como a língua que você não aprende na escola. A  língua que a gente fala com os amigos. E dele nasceu nosso português). Agora você fala isso para sua mãe e diz para ela também que em francês o verbo é travailler e se fala travaiê, não é quase igual trabaiá?
-É sim. Ta vendo, por serem línguas irmãs vindas dos mesmos pais, ficam traços que o tempo abafa e depois aparece. O menino espertamente disse:
-Ah! Dani agora entendo porque minha vó fala barrer e não varrer. As pessoas riem, mas agora sei. Porque no frances fala travaiê. Ta vendo? Eu sorri de tanta felicidade. Pô! Uma criança de 9 anos entendendo o funcionamento da língua, despida de todos os preconceitos e compreendo todo o dinamismo que a envolve. Meu! Para mim isso foi o melhor presente do mundo. Felicidade doida. Rs Eu disse:
- É mais ou menos isso mesmo. Lembra que eu te disse que as línguas são irmãs, então... com o tempo elas foram crescendo se afastando dos pais e criando suas vidas próprias. E sempre fica algo dos pais na gente, mesmo quando ficamos grande. Dá para entender?
-Sim. E me deu abraço.  E disse:
- Não gosto que tirem sarro do meu avô. Agora vou explicar o que você ta me ensinando.

Nota: Quis relatar o fato porque o problema todo é que a língua não padrão é geralmente utilizada por pessoas consideradas excluídas socialmente. E ao contrário do que se pensa a língua falada não é pobre ela tem toda uma lógica rica. Alias, pobre é quem repete o discurso do erro sem ao menos se preocupar em descobrir os motivos da língua variar tanto, taxando as pessoas de rótulos imbecis. Quando no fato o imbecil é ele, por achar que sabe algo, mas já dizia o grande Socrates: Sei que nada sei. As pessoas mais cultas que conheci na vida ou que admiro são humildes e enxergam na linguagem popular vida.
Para mim erro  é fadar pessoas viverem na marginalidade devido sua classe social e sua forma de verbalizar com o mundo, imoral é assistir pessoas passando fome e não tendo acesso a educação/cultura. O preconceito linguístico existe para ser alicerce de um dos maiores preconceitos que existe: o SOCIAL.
A língua é o que nos faz sermos humanos... Compreender suas variações é ter capacidade de aprender e de ser GENTE. 

terça-feira, dezembro 21, 2010

A leitura como aventura e paixão

Gostei muito deste texto do Moacyr Scliar – A leitura como aventura e paixão – para a revista Carta Escola. Acredito que é um texto que mereça ser lido, analisado com carinho e de maneira racional por pais e educadores.

Penso que a leitura é um processo dialógico: leitor e texto, portanto uma experiência pessoal de cada individuo, a qual deve ser encarado como a descoberta do si e do mundo. Portanto, fundamental para a vida do individuo em formação.

O professor é um importante mediador de leitura ( com sugestões/indicações) e desempenha papel fundamental na formação do jovens leitores, por isso proibir/censurar a leitura um texto é não contribuir para a formação literária do jovem/criança; e como disse Scliar com o tempo o leitor saberá selecionar o que é bom e ruim para ele, afinal isso também é particular de cada um.

Também concordo com o autor quando ele diz que o caminho é prevenir e não remediar, pois o dialogo com os jovens e crianças é fundamental, é sempre bom conversar/compartilhar sobre uma obra literária e também sobre os perigos da sociedade da informação, onde o controle é quase zero, ou seja tem que preparar criança/jovem para isso. O melhor caminho: sinceridade. Ando obcecada com a verdade depois de Nietzche – Ecce hommo- confesso.

A literatura como qualquer forma de arte salva vidas e selecioná-la pressupõe um tipo de exclusão e um crescimento sem capacidade de discernimento. Portanto viva a liberdade de escolha e de poder viajar pela aventura que é ler...Assim jovens/crianças aprenderão a fazer suas escolhas de forma saudável.

Segue o texto: A leitura como aventura e paixão 
O professor nunca deve proibir um livro. Mesmo que a obra seja ruim ou inadequada, a missão do educador é fazer o aluno entender os motivos disso
O romance de Ray Brad-bury, Fahrenheit 451, publicado em 1953, fala-nos de  um futuro em que opiniões pessoais e o pensamento crítico são considerados coisas perigosas e no qual  todos os livros são proibidos e queimados: o número 451 do título refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) na qual o papel pega fogo. Trata-se, obviamente de ficção, mas houve momentos em que essa ficção expressou a realidade. A censura acompanhou como um sombrio espectro boa parte da história da humanidade. O próprio termo “censor”, que é latino, data do século quinto antes de Cristo, quando o Império Romano delegou a funcionários a tarefa de moldar o caráter das pessoas. Mas não só em Roma acontecia isso; na Grécia clássica, em 399 a.C., o filósofo Sócrates foi condenado à morte por difundir entre jovens ideias consideradas perigosas. Desde então, não foram poucos os regimes totalitários que prenderam ou mataram aqueles que ousavam contestá-los.
A partir da invenção da imprensa, por Johannes Gutenberg, no século XV, o livro impresso passou a ser um alvo preferencial nesse processo. Já em 1559, a Igreja estabelecia o Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros que os fiéis não podiam ler, e que teve mais de 20 edições, antes de ser definitivamente suprimida em 1966. As autoridades civis exerciam poder semelhante; em 1563, o rei Carlos IX, da França, baixou decreto estabelecendo que nenhuma obra podia ser impressa sem permissão do rei. Nos séculos que se seguiram, e sob várias formas e pretextos, livros foram proibidos e até queimados, como aconteceu na Alemanha nazista. Os motivos, ou pretextos, eram de várias ordens: morais, políticos, militares. Nos Estados Unidos, em vários lugares e por várias instituições, foram censurados livros como Chapeuzinho Vermelho (numa das versões a menina oferece vinho para a sua avó), Alice no País das Maravilhas (os animais falam com linguagem humana), a coleção Harry Potter (supostamente promove bruxaria). Numa época, direções de escolas no Rio Grande do Sul proibiram os livros de Erico Verissimo, porque achavam ser imorais.
No Brasil, tivemos um período de censura severa, quando do regime autoritário (1964-1985). As razões apresentadas não raro beiravam o ridículo; numa exposição de “material subversivo” apreendido em Porto Alegre, havia um livro com a seguinte legenda: “Obra esquerdista em chinês”. Era uma Bíblia em hebraico. Mais recentemente, e nas escolas, surgiram problemas com livros que narravam cenas de sexo e de violência, às vezes selecionados por técnicos da área educacional. Por outro lado, sabemos que a disseminação da pornografia e da violência é cada vez mais frequente. E isso sem falar na questão do politicamente correto, que procura evitar palavras ou expressões potencialmente ofensivas a grupos étnicos ou religiosos, ou a opções sexuais.  Pergunta: o que devem fazer os pais e educadores diante dessa situação?
Creio que uma expressão consagrada pela saúde pública aqui se aplica perfeitamente: é melhor prevenir do que remediar. E isso por uma simples razão: é tão grande o volume de informações atualmente disseminadas, não só por livros, mas também pela internet, por vídeos, pela própria tevê, que é impossível evitar o acesso de crianças e jovens a esse material. O melhor é prepará-los para que possam identificar os potenciais riscos que estão ocorrendo. Mas há um aspecto adicional. Esses riscos não são como os do fumo ou das drogas, substâncias sempre nocivas, e que, em qualquer dose, envenenam o organismo. O material veiculado pelos meios de comunicação pode se transformar numa fonte de aprendizado. É como vacinar uma pessoa: ela é inoculada com germes inativos e seu organismo preparará anticorpos que vão defender essa pessoa de doenças. Isso exige um estreitamento dos laços entre pais e professores, de um lado, e os jovens de outro. No caso da tevê, por exemplo, é muito bom que o pai ou a mãe sente ao lado da criança e converse com ela sobre o que aparece na tela. Também é muito bom que os pais leiam para os filhos quando esses ainda são pequenos. Isso, além de introduzir a criança ao mundo dos livros, representará um vínculo emocional que persistirá por toda a vida. O menino e a menina associarão o livro à imagem protetora do pai ou da mãe.
Em relação à escola, vale o mesmo raciocínio. Quando um jovem me pergunta que livros deve ler, respondo: “Em primeiro lugar, aqueles que os professores indicam; eles conhecem o assunto, eles têm condições de fazer boas recomendações”. Mas nunca digo que o jovem não deve ler tal ou qual obra, tal ou qual autor. Meu aprendizado como leitor passou por livros que depois considerei tolos ou ruins. Mas isso foi útil para que eu pudesse aprender a formar o meu juízo crítico. Na leitura, a gente avança pelo método de tentativa e erro, de aproximações sucessivas.
Em resumo, proibir ou censurar, não. Recomendar, debater, ensinar, sim. Vivemos num mundo cheio de imperfeições e perigos, e o que podemos fazer com nossos filhos e alunos é ensiná-los a navegar por esse mar turbulento, em navios cujas velas são as páginas da grande literatura. Ler é aventura, ler é paixão.
Fonte: Carta Escola 

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Como despertar o prazer da leitura nas crianças?

A leitura é um meio de aquisição de informação, portanto podemos considerá-la um ato social, mais que isso ela constitui um PRAZER solitário, pois pode proporcionar muitas alegrias ao leitor. Buscamos a leitura para aprender, compreender, refletir, pelas emoções, pela beleza da linguagem, para compartilhar, sonhar, descobrir e até esquecer...O triste é que atualmente este prazer da leitura vem perdendo espaço e brilho para a leitura de informação/utilitária, ou seja, a centrada em textos informativos, dados, números, talvez, devido a sociedade moderna, a qual cobra informação nova a todo instante, contudo sem reflexão/análise. Consequentemente as pessoas quase não experimentam mais o “deleite” que a literatura nos proporciona. Uma pena!

Cheguei a essa conclusão depois de uma conversa com um colega jornalista, o qual me disse que a literatura era inútil e que não acrescentava nada na vida dele(dispensável). Confesso: Tento respeitar todas opiniões, mas o comentário do moçoilo foi um dos mais toscos que ouvi em toda minha vida. Lamentável, até pela profissão que o camarada exerce: ele vive de textos – mesmo que sejam utilitaristas-, penso que quando se escreve o universo não pode ser limitado. Mas...Enfim, tirei forças de dentro do meu core, porque, ás vezes, sinto-me cansada para certas argumentações. Ainda mais esta...Vesti-me de coragem, respirei fundo e explanei.

Bem, eu disse para o cabra/jornalista que a literatura oferecia muitos saberes, porém não um conhecimento direto, o que para mim era genial, pois aguçava minha curiosidade a buscar mais conhecimento. Neste momento empolguei-me, porque eu sou assim..Em alguns discursos surto total e para me conter é difícil. Rs Ah! Também expliquei com paciência e dedicação que a interação do leitor com a obra ( intelecto + imaginação) ampliava os horizontes e as perspectivas de mundo, pois além da literatura ser um prazer é um exercício de pensar/criticar/analisar, ou seja um ato de caráter individual e social, pois o leitor é o agente da transformação social ( lembram-se de Sartre? Citado no texto do Dostoievski-abaixo- e a preocupação com a arte transformadora...mais ou menos isso.) e ampliando sua capacidade de análise critica ele estaria mais preparado para interpretar sua realidade social e para atuar de forma mais consciente no mundo. No final da conversa, acho que para tentar conter meu surto verbal, ele disse que concordava comigo, mas admitia que odiava ler. Enfim...Fiquei sem entender mais nada...Um jornalista que odeia ler?Bem...Na verdade, entendo o caráter técnico da profissão agora. Que coisa! Não direi mais nada...Mas a conversa me levou a outra reflexão...e a questão começou a me incomodar: Como despertar o prazer da leitura nas crianças? Preciso tentar responder essa questão...Se puderem me ajudar, o blog tá aberto a sugestões.

A única coisa que sei é que não é da forma que está que despertaremos esse gosto pela leitura nos pequenos. Penso que a criança deva descobrir como é divertido buscar conhecimento nas histórias e imaginar...Todavia ai é importante a presença da família( ou algo que a substitua) como exemplo e que incentive esse tipo de atividade. Pensando em como resolver a questão para não ter mais que ouvir coisas tão imbecis assim...Eita! Será que eu tô sendo intolerante?

terça-feira, junho 08, 2010

Há décadas, Israel comete crimes como o do ataque à flotilha

Noam Chomsky
Do The New York Times

O ataque violento de Israel à Flotilha da Liberdade que levava ajuda humanitária à Faixa de Gaza chocou o mundo.
Sequestrar barcos em águas internacionais e matar passageiros é, com certeza, um crime grave. Mas o crime não é nada novo.
Há décadas, Israel vem sequestrando barcos entre o Chipre e o Líbano e matando ou sequestrando passageiros, algumas vezes mantendo-os como reféns em prisões israelenses.
Israel supõe que pode cometer tais crimes com impunidade porque os Estados Unidos os toleram e a Europa geralmente segue a direção dos EUA.
Como os editores do The Guardian muito bem observaram em 1º de junho, "se ontem um grupo armado de piratas somalis tivesse entrado em seis barcos em alto mar, matando pelo menos 10 passageiros e ferindo muitos outros, uma força-tarefa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estaria se dirigindo hoje para a costa somali". Nesse caso, o tratado da Otan determina que seus membros prestem ajuda a um país companheiro na Otan - a Turquia - atacado em alto mar.
O pretexto de Israel para o ataque foi que a Flotilha da Liberdade estava transportando materiais que o Hamas poderia usar para construir bunkers e lançar foguetes contra Israel.
O pretexto não é crível, Israel pode facilmente colocar um fim na ameaça dos foguetes por meios pacíficos.
O contexto histórico é importante. O Hamas foi considerado uma maior ameaça terrorista quando venceu uma eleição livre em janeiro de 2006. Os Estados Unidos e Israel reforçaram suas punições de palestinos, agora pelo crime de votarem da forma errada.
O cerco a Gaza, incluindo um bloqueio naval, foi uma consequência. O cerco se intensificou acentuadamente em junho de 2007, depois que uma guerra civil colocou o Hamas no controle do território.
O que é comumente descrito com um golpe militar do Hamas foi, na verdade, incitado pelos Estados Unidos e por Israel, em uma rude tentativa de reverter as eleições que tinham levado o Hamas ao poder.
Isso é de conhecimento público desde pelo menos abril de 2008, quando David Rose relatou na Vanity Fair que George W. Bush, a conselheira de Segurança Nacional Condoleezza Rice e seu vice, Elliott Abrams, "apoiaram uma força armada sob o comando do homem forte do Fatah Muhammad Dahlan, desencadeando uma sangrenta guerra civil em Gaza e deixando o Hamas mais forte do que nunca". O terror do Hamas incluía lançar foguetes nas cidades israelenses próximas - ato criminoso, sem dúvida, embora seja apenas uma minúscula fração dos crimes rotineiros dos Estados Unidos e de Israel em Gaza.
Em junho de 2008, Israel e o Hamas firmaram um acordo de cessar-fogo. O governo israelense o reconheceu formalmente até que Israel quebrou o acordo em 4 de novembro daquele ano, invadindo Gaza e matando meia dúzia de ativistas do Hamas. O Hamas não disparou um único foguete.
O Hamas propôs renovar o cessar-fogo. O gabinete israelense avaliou a oferta e a rejeitou, preferindo lançar sua invasão assassina de Gaza em 27 de dezembro.
Assim como outros estados, Israel tem o direito à autodefesa. Mas Israel tinha o direito de usar a força em Gaza em nome da autodefesa? A lei internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas, não apresenta ambiguidades: uma nação tem esse direito apenas se esgotou os meios pacíficos. Neste caso, tais meios não foram sequer tentados, embora - ou talvez porque - houvesse todas as razões para se supor que teriam funcionando.
Dessa forma, a invasão foi uma agressão claramente criminosa, e o mesmo pode ser dito sobre Israel ter recorrido à força contra a flotilha.
O cerco é brutal, destinado a manter os animais enjaulados quase mortos com o objetivo de evitar o protesto internacional, mas não mais do que isso. É o último estágio dos antigos planos israelenses, respaldados pelos Estados Unidos, para separar Gaza da Cisjordânia.
A jornalista israelense Amira Hass, uma importante especialista em Gaza, descreve a história do processo de separação: "as restrições ao movimento palestino que Israel introduziu em janeiro de 1991 reverteram um processo iniciado em junho de 1967. Naquela época - e pela primeira vez desde 1948 -, grande parte da população palestina vivia novamente no território aberto de um único país - sem dúvida, um país que estava ocupado, mas, no entanto, estava inteiro".
Hass conclui: "A separação total da Faixa de Gaza da Cisjordânia é uma das maiores realizações da política israelense, cujo objetivo preponderante é evitar uma solução baseada em decisões e entendimentos internacionais e, em vez disso, ditar um acordo baseado na superioridade militar de Israel".
A Flotilha da Liberdade desafiou essa política e, por isso, deve ser esmagada.
Um esquema para encerrar o conflito árabe-israelense existe desde 1976, quando os países árabes introduziram uma resolução do Conselho de Segurança exigindo o estabelecimento de dois estados na fronteira internacional, incluindo todas as garantias de segurança da Resolução 242 das Nações Unidas, adotada depois da guerra de junho de 1967.
Os princípios essenciais são virtualmente apoiados pelo mundo todo, incluindo a Liga Árabe, a Organização dos Estados Islâmicos (incluindo o Irã) e protagonistas importantes que não são estados, incluindo o Hamas.
Mas os Estados Unidos e Israel lideraram a rejeição a esse arranjo por três décadas, com uma exceção crucial e altamente instrutiva. Em seu último mês no cargo, em janeiro de 2001, o presidente Bill Clinton iniciou em Taba, no Egito, as negociações entre israelenses e palestinos, que quase chegaram a um acordo, anunciaram os participantes, até que Israel encerrou as negociações.
Hoje, o legado cruel de uma paz fracassada continua a existir.
O cumprimento da lei internacional não pode ser exigido contra os estados poderosos, a menos que por seus próprios cidadãos. Isso é sempre uma tarefa difícil, particularmente quando a opinião articulada declara que o crime seja legitimado, seja explicitamente ou por meio da adoção tácita de um sistema criminal - o que é mais insidioso, porque torna os crimes invisíveis.

Noam Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, Massachusetts. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.
Fonte: Terra Magazine